Essa é a história de Clarice.
Deixara seus conceitos de lado e abandonara o medo de se reaproximar de seu melhor amigo, com quem já não falava há pouco mais de três meses.
Lembrava-se da última conversa. Das mensagens incompreendidas, dos tons irônicos, das injúrias, dos maus julgamentos e de toda a falta de amor e carinho que parecia existir naquela discussão calorosa, onde qualquer reconciliação parecia distante demais.
Lembrava-se de todas as vezes em que seu amado protetor lhe buscara no curso de pintura. Nas incontáveis vezes em que lhe escreveu cartas, lhe entregou fotos, lhe dividiu a vida e o que de melhor poderia haver nela. Já não era capaz de recordar quantas vezes havia sido feliz ao lado daquele que por amor, parecia lhe compreender tão bem - mesmo que não houvesse qualquer envolvimento físico entre os dois.
Clarice entendera que talvez, pela proporção do sentimento que ainda alimentava, devesse ir até seu tão querido conselheiro. O que ela não compreendia era o tamanho engano que fazia se dando essa opção.
Pablo já não era o mesmo. Não era igual.
As incontáveis semanas vividas em afastamento haviam sido suficientes pra que ele, por vontade, quisesse apagá-la de sua vida e de seu convívio.
Quando puxara um assunto qualquer, Clarice percebera nele uma profunda falta de ânimo em lhe responder. Perguntava-lhe sobre a vida, sobre seu cotidiano, seu novo emprego e sua família; e ele lhe respondera de forma breve e desinteressada.
Finalmente, Clarice decidiu confrontá-lo. Escreveu um longo e-mail expressando o modo como se sentia. E sua surpresa veio em seguida.
Pablo lhe dissera com todas as letras em resposta que ela já não poderia fazer parte de seu mundo, que já não era tão necessária e que lhe carregar parecia um peso desproporcional ao resultado, visto que sempre acabavam brigando e se machucando.
Clarice tentava entender todas as informações expostas ali, enquanto chorava e soluçava de tamanha tristeza. Ele fora incisivo: Não possuía mais amor ou consideração por ela. Pelo menos, não na proporção anterior. E então, Clarice entendeu que era tarde demais.
Algo havia se partido, se quebrado por completo.
A moça perdeu a noção do que havia sido real e do que era meramente fantasioso. Queria acreditar que em algum momento havia sido importante, mas não podia. Era nítida a falta que ela não fazia.
Clarice finalmente entendera o que seu pai um dia lhe havia dito: Tudo na vida tem um prazo.
O prazo de Pablo em sua vida havia se esgotado. E agora ela entendia bem.
Não desejava forçar sua presença. Não desejava ter menos do que poderia. E então, disse adeus.
Rasgou as cartas e o velho poema em espanhol que ele havia lhe escrito em caráter de brincadeira.
Jogara fora a pelúcia que ganhara de seu amigo num parque de diversões.
Se desfizera da foto pendurada em seu mural de memórias.
Excluíra de seu celular todas as músicas que havia aprendido a apreciar por influência dele.
Livrou-se dos pesos e da dor que uma partida tão abrupta lhe causara.
Clarice guardara o melhor de si. Haveria outro bom amigo pra quem entregar.
Ela jamais voltaria a ser quem havia sido ao lado de Pablo - aquele que lhe prometera amizade e amor infinitos, quando pensavam que seriam.
Mesmo que nenhum dos dois fosse, de fato, infinito.
terça-feira, 19 de abril de 2016
quinta-feira, 14 de abril de 2016
De volta para Oz'
Como na obra de L. Frank Baum, nos deparamos com ideias similares
sobre quem seriamos, de fato. Enquanto eu o escutava, passei a reavaliar cada
medo que me cercava até então. Tão fictícios quanto os personagens da história,
e tão brevemente reais éramos nós.
- Acho que sou como o Homem de Lata - ele mencionou, perdido
nos próprios pensamentos – Eu não tenho sentimentos, não os preservo porque não
sei onde estão. Eu não sinto a dor, eu não sinto o amor. Eu não sinto nada. Só
o vazio de sempre, que me causa impaciência, porque nem mesmo tristeza por
conta disso sou capaz de sentir.
Sentada a frente dele, pensei por mais um instante.
- Se você é o Homem de Lata, talvez eu seja o Leão –
Mencionei, olhando fixamente para ele, que ainda se mantinha perdido em devaneios
– O Leão é forte, mas não tem o que lhe seria mais útil e preciso... a coragem.
Eu tenho medo de tudo, especialmente quando se trata de perder pessoas por circunstâncias
que não posso mudar. Eu sou o Leão, o Leão Covarde – Concluí.
E depois de vagos segundos em silêncio, eu finalmente me
permiti concluir que para nós, talvez a única solução aceitável fosse voltar para a terra
de Oz, de onde nunca deveríamos ter saído.
terça-feira, 5 de abril de 2016
Não quero mais fazer isso hoje
"Não quero mais fazer isso hoje''. Foi exatamente o que pensei pouco depois de estalar os dedos exaustos da mão direita usando a mão esquerda.
Olhei pra tela do computador e nela havia uma infinidade de palavras sobre as tais teorias da comunicação, de onde me vem partindo inspiração há pouco mais de duas semanas.
Li e reli tudo o que eu havia digitado até aquele momento.
Me pareceu algo inteligente de ser escrito, especialmente se tratando de mim - que me considero tão desprovida de certos entendimentos.
Finalmente usei a música como meu último recurso, pois apesar de me sentir inspirada pela matéria, a fadiga tomava conta do meu cérebro e me pregava peças, fazendo com que eu me distraísse com assuntos alheios pouco relevantes.
Abri mais uma de tantas abas já ocupadas do Google e digitei o nome do meu novo vício musical: Pearly Dewdrop's Drops.
A melodia se espalhou pela sala, curando instantaneamente minha exaustão mental.
Entendi, mais uma vez, que eu precisava respeitar os meus limites.
Era isso o que eu vinha aprendendo no último mês. E agora esse tal aprendizado, assim como tantas teorias da comunicação, já não me parecia informação demais.
Não me parecia um peso.
Olhei pra tela do computador e nela havia uma infinidade de palavras sobre as tais teorias da comunicação, de onde me vem partindo inspiração há pouco mais de duas semanas.
Li e reli tudo o que eu havia digitado até aquele momento.
Me pareceu algo inteligente de ser escrito, especialmente se tratando de mim - que me considero tão desprovida de certos entendimentos.
Finalmente usei a música como meu último recurso, pois apesar de me sentir inspirada pela matéria, a fadiga tomava conta do meu cérebro e me pregava peças, fazendo com que eu me distraísse com assuntos alheios pouco relevantes.
Abri mais uma de tantas abas já ocupadas do Google e digitei o nome do meu novo vício musical: Pearly Dewdrop's Drops.
A melodia se espalhou pela sala, curando instantaneamente minha exaustão mental.
Entendi, mais uma vez, que eu precisava respeitar os meus limites.
Era isso o que eu vinha aprendendo no último mês. E agora esse tal aprendizado, assim como tantas teorias da comunicação, já não me parecia informação demais.
Não me parecia um peso.
terça-feira, 29 de março de 2016
Sorvete de limão - Um conto sobre Gustavo
Revirou-se a noite toda em sua própria cama.
Havia vindo de uma festa da empresa, onde bebera pouco mais de duas garrafas de cerveja. A temperatura baixa da bebida piorou a inflamação que vinha tratando na garganta desde o início da semana anterior. E em questão de algumas horas, Gustavo tremia em febre.
A inflamação tomara uma proporção maior, havia piorado drasticamente.
Gustavo tentara de todas as formas se livrar da terrível sensação que consumia seu corpo, mas não encontrava forças. Virara-se para o criado mudo e tomara um gole d'água de seu copo, colocado estrategicamente ali para sanar a sede da madrugada.
A testa suava, o corpo lhe parecia frio, quando na verdade estava completamente quente.
Sussurrou o nome dela.
E então lembrara-se da infância, da história que sua mãe adorava lhe contar sorrindo.
Pouco antes de completar 7 anos, Gustavo adoecera. Pegara uma catapora forte e ficara de cama por aproximadamente três dias.
Em um de seus tantos delírios febris, começou a pedir à mãe por sorvete de limão. Um delírio fraco e inocente, de um garoto que de tanto mal-estar só era capaz de fazer insistentemente o mesmo pedido.
Sorvete de limão era o que Gustavo mais desejava naquele momento. Que pudesse ter qualquer doce, que pudesse se deliciar com qualquer guloseima; a vontade de Gustavo era genuína e bastante sutil: Sorvete de limão.
O garoto passara minutos intermináveis apenas mencionando o seu desejo. A mãe, por receio de piorar a febre e o estado de saúde do garoto, não atendeu.
Gustavo agora sussurrava um nome, sabendo que seu pedido seria igualmente ignorado.
Chamava por Maria Clara. Dizia seu nome em alto e bom som. Há tempos não tinha coragem de pensar sequer em suas iniciais, que dirá dizer o nome todo.
"Maria Clara, que nome lindo", pensara ainda em estado febril.
Se recordava do sorriso dela. Do toque delicado de suas mãos, que sentia ser capaz de materializar naquele exato momento.
Se Maria Clara estivesse ali, se pudesse sentir a sua dor, o seu mal-estar, se muniria de todos os seus recursos para ajudá-lo. Mas ela não tinha sequer como imaginar. Não se falavam há meses. Ele tentara ligar algumas vezes e fora ignorado. Desistira.
Levantou com dificuldade de sua cama, colocou os chinelos de pano e caminhou em direção ao banheiro. Despiu-se de seu pijama e finalmente abriu o chuveiro. Controlou o registro manualmente para que a temperatura diminuísse ao máximo, pois se lembrara dos conselhos de sua mãe em casos de febre. Sentia frio, mas resistiu até onde pôde embaixo d'água. Sentia-se um tanto melhor após se secar o colocar novamente o pijama.
Voltara ao quarto.
Ao consultar o celular para se certificar do horário, vira a mensagem inusitada em sua caixa de entrada:
"A insônia sempre foi o pior dos meus distúrbios. E hoje me lembrei de você. Espero que esse ainda seja o seu número e que você esteja bem, eu gostaria que estivesse. Beijos, M. Clara."
Teria ela escutado o seu chamado? Seria ela capaz de receber a transmissão de um pensamento?
Gustavo agora sentia-se infinitamente melhor. Poderia dormir tranquilo.
Amanhã, sem falta, a procuraria outra vez.
Havia vindo de uma festa da empresa, onde bebera pouco mais de duas garrafas de cerveja. A temperatura baixa da bebida piorou a inflamação que vinha tratando na garganta desde o início da semana anterior. E em questão de algumas horas, Gustavo tremia em febre.
A inflamação tomara uma proporção maior, havia piorado drasticamente.
Gustavo tentara de todas as formas se livrar da terrível sensação que consumia seu corpo, mas não encontrava forças. Virara-se para o criado mudo e tomara um gole d'água de seu copo, colocado estrategicamente ali para sanar a sede da madrugada.
A testa suava, o corpo lhe parecia frio, quando na verdade estava completamente quente.
Sussurrou o nome dela.
E então lembrara-se da infância, da história que sua mãe adorava lhe contar sorrindo.
Pouco antes de completar 7 anos, Gustavo adoecera. Pegara uma catapora forte e ficara de cama por aproximadamente três dias.
Em um de seus tantos delírios febris, começou a pedir à mãe por sorvete de limão. Um delírio fraco e inocente, de um garoto que de tanto mal-estar só era capaz de fazer insistentemente o mesmo pedido.
Sorvete de limão era o que Gustavo mais desejava naquele momento. Que pudesse ter qualquer doce, que pudesse se deliciar com qualquer guloseima; a vontade de Gustavo era genuína e bastante sutil: Sorvete de limão.
O garoto passara minutos intermináveis apenas mencionando o seu desejo. A mãe, por receio de piorar a febre e o estado de saúde do garoto, não atendeu.
Gustavo agora sussurrava um nome, sabendo que seu pedido seria igualmente ignorado.
Chamava por Maria Clara. Dizia seu nome em alto e bom som. Há tempos não tinha coragem de pensar sequer em suas iniciais, que dirá dizer o nome todo.
"Maria Clara, que nome lindo", pensara ainda em estado febril.
Se recordava do sorriso dela. Do toque delicado de suas mãos, que sentia ser capaz de materializar naquele exato momento.
Se Maria Clara estivesse ali, se pudesse sentir a sua dor, o seu mal-estar, se muniria de todos os seus recursos para ajudá-lo. Mas ela não tinha sequer como imaginar. Não se falavam há meses. Ele tentara ligar algumas vezes e fora ignorado. Desistira.
Levantou com dificuldade de sua cama, colocou os chinelos de pano e caminhou em direção ao banheiro. Despiu-se de seu pijama e finalmente abriu o chuveiro. Controlou o registro manualmente para que a temperatura diminuísse ao máximo, pois se lembrara dos conselhos de sua mãe em casos de febre. Sentia frio, mas resistiu até onde pôde embaixo d'água. Sentia-se um tanto melhor após se secar o colocar novamente o pijama.
Voltara ao quarto.
Ao consultar o celular para se certificar do horário, vira a mensagem inusitada em sua caixa de entrada:
"A insônia sempre foi o pior dos meus distúrbios. E hoje me lembrei de você. Espero que esse ainda seja o seu número e que você esteja bem, eu gostaria que estivesse. Beijos, M. Clara."
Teria ela escutado o seu chamado? Seria ela capaz de receber a transmissão de um pensamento?
Gustavo agora sentia-se infinitamente melhor. Poderia dormir tranquilo.
Amanhã, sem falta, a procuraria outra vez.
terça-feira, 22 de março de 2016
Você foi o sorriso mais bonito na multidão
E eu perdi a conta de quantas vezes te disse isso.
E olhei nos teus olhos. E te pedi mais um sorriso.
E você, com esse rosto tão iluminado, tão característico, tão único, me ofereceu.
Não sei bem quantos sorrisos você já me deu. E não existe um que tenha sido mais bonito.
Todos os teus são teus, mas até o menor deles é o mais belo dentre todos os outros que eu já vi.
De todos os sorrisos que já me apareceram, o teu é o mais bonito nessa multidão.
Porque é o teu.
Porque dele vem a felicidade que eu provoco.
Porque é nele que eu mergulho pra fugir do mundo.
Pra fugir e me achar em você.
E no teu sorriso. Que é o mais bonito dentre todos os dessa multidão.
E olhei nos teus olhos. E te pedi mais um sorriso.
E você, com esse rosto tão iluminado, tão característico, tão único, me ofereceu.
Não sei bem quantos sorrisos você já me deu. E não existe um que tenha sido mais bonito.
Todos os teus são teus, mas até o menor deles é o mais belo dentre todos os outros que eu já vi.
De todos os sorrisos que já me apareceram, o teu é o mais bonito nessa multidão.
Porque é o teu.
Porque dele vem a felicidade que eu provoco.
Porque é nele que eu mergulho pra fugir do mundo.
Pra fugir e me achar em você.
E no teu sorriso. Que é o mais bonito dentre todos os dessa multidão.
quarta-feira, 16 de março de 2016
Enganada por sua própria necessidade de apego - Um conto sobre Olívia
Essa é a história de Olívia.
Com 18 anos - e após mais uma desilusão - resolveu que finalmente conheceria o outro lado da vida. O lado B. De beijos intensos, de flertes e calores desconhecidos. E mesmo assim, após a infinita sequência de noites mal dormidas, de paixões noturnas, viu-se mais uma vez encantada por um rapaz. Alguém que julgou ser diferente daquela maioria que não oferecia mais que breves desejos, sem qualquer carinho, sem qualquer assistência emocional.
Enganada por sua própria necessidade de apego, resolveu oferecer uma chance àquele novo e possível amor.
Ele era calmo, educado. Vinha de uma família sem danos, sem traumas. Olívia se identificara com tais padrões e agora desejara paz. Se jogou na relação, mesmo sabendo que ele, apesar de cultivar carinho por ela, ainda amava a ex.
Passaram a se encontrar com frequência. Ele perguntava-lhe sobre seu dia, suas inquietações, seus horários. Dizia-lhe coisas doces, ternas. Cobrava-lhe saudade, presença. E finalmente, Olívia entendeu que deveria ser ele. Aquele que lhe cuidaria, que lhe salvaria do mundo louco no qual havia entrado por pura pirraça.
Passadas algumas semanas, Olívia via-se esforçando ao máximo para capturar tudo de bom que ele poderia sentir por ela. Percebera agora que, apesar de bondoso, ele possuía alguns defeitos. Mas, quem não os tem?
Num dado momento sentira necessidade de falar aos seus bons e velhos amigos de outrora, e num ato excessivo, seu novo namorado a proibira, alegando não existir amizade sincera entre homens e mulheres.
Tomada pela necessidade de manter a relação que julgava - quase - perfeita, aceitou as condições.
Olívia passara a ignorar as mensagens, as chamadas e os convites. Na sua convicção, já não fazia sentido alimentar algo que ''seu futuro marido'' julgava ser completamente fora de propósito.
Passado um período um pouco maior, as discussões se iniciaram com mais frequência. Desta vez, eram as roupas de Olívia que incomodavam. O short de cintura alta, o allstar pink que tanto gostava, os blazes estampados com imagens abstratas, o delineador preto em seus olhos.
Algo lhe parecia completamente errado, pois o ''grande amor de sua vida'' agora se recusava a sair se Olívia estivesse usando uma roupa ''fora dos padrões'', mesmo que isso representasse sua identidade. De sua boca, passara a escutar que tais roupas lhe deixavam ''ridícula''.
Decidida a amenizar os problemas em sua relação, passou a procurar roupas mais casuais.
Possuía um corpo magro e bonito, e nesse caso era muito difícil que uma roupa qualquer lhe caísse mal. Adotou uma identidade visual que não lhe parecia em nada com seus gostos, mas manteve.
Percebia agora que seu tão estimado namorado levantava a voz até pelo menor motivo. Se esquivava de entrar em redes sociais na sua presença e, por mais apaixonado que fosse, não lhe levava de forma alguma aos encontros de amigos da faculdade.
Ao invés disso, preferia deixar-lhe em casa, com orientações de SOMENTE sair na presença de sua mãe.
Ela finalmente percebeu a regressão de sua vida. Havia mudado e essa mudança sequer valia a pena.
Deixara tudo o que amava pra trás, e esse ato não era minimamente reconhecido.
Desconfiava quase todo o tempo das intenções de seu ''príncipe encantado'' perante as garotas da faculdade. E se submetia a tudo o que a mãe do rapaz queria e esperava dela, mesmo quando lhe parecia responsabilidade demais.
Passou a perder aniversários de família e o ápice de sua tristeza, foi perder a oportunidade de estar com o próprio pai no Dia dos Pais daquele ano e fazê-lo pelo simples fato de querer agradar à família de seu querido amado.
Olhou-se no espelho certa vez e não se reconheceu. Não identificava mais quem era e quem de fato queria ser. E passou a achar-se sempre feia, com a insistência do namorado que dizia ''Você tem que ser normal, ainda é muito diferente das outras meninas. Isso não é bom."
Finalmente, em uma de suas tantas discussões, ela resolveu partir daquela relação. Ele se recusara a aceitar. Gritara, injuriara e finalmente, chorara diante dela.
Comovida, Olívia viu-se disposta a dar-lhe uma segunda chance, visto que aquele lhe parecia o amor de sua vida.
Passando meses conturbados entre discussões leves e cobranças desmedidas, ela percebera nele a falta de pudor em lidar com as garotas que o procuravam. Sentia-se sozinha e buscava quem pudesse ajudá-la a resolver as questões que surgiam em sua cabeça, mas já não tinha quem estivesse à sua disposição. Seu grande amor havia afastado alguns de seus melhores amigos com insinuações. Outros amigos, a assistiam de longe sem que pudessem se intrometer. Seu grande amor havia deixado claro que considerava suas amigas como más influências, e Olívia - ingênua - acatara.
Após mais um desentendimento banal, ela finalmente decidira ir embora. Dessa vez, seu amado fora mais longe: A puxara pelo braço, deixando uma marca roxa. Depois, com esforço e mais algumas lágrimas, a convencera de ficar, de tentar novamente. Prometera mudar. Pedia-lhe perdão por estar tão descontrolado e jogava a responsabilidade desse ato no fato de não se sentir amado pela mãe, que preferia o irmão mais novo.
Olívia já sabia que não o amava. Que talvez nunca o tivesse amado.
Tinha consciência de tudo o que perdera em prol de amor que não representava mais nada.
Buscou refúgio. Sem faltar com respeito, sem ignorar sua relação, sem ofender ninguém.
Num de seus surtos de ciúmes, seu grande amado fuçou sua bolsa até localizar seu celular. Nele, encontrou uma única mensagem e isso bastou. Olívia, que jamais traíra o namorado, que já aguentara humilhações que incluíam vê-lo flertando descaradamente com outra mulher, agora era a moça mais promíscua e vulgar de que se tinha conhecimento.
Olívia, que se esforçara ao máximo pelo relacionamento, agora era chamada de vagabunda, mentirosa e todos os outros xingamentos que ele encontrou pra justificar uma mensagem que dizia ''Eu gostaria que você estivesse aqui para conversar comigo''.
Precisou levar o pouco que ainda restava de si.
Chorou. Desejou não ter ouvido tudo o que ouviu. Mas, em seu íntimo, Olívia agora era livre. E ela bem sabia disso.
Poderia recomeçar em qualquer lugar, sendo apenas quem ela era. E isso bastava naquele momento.
Com 18 anos - e após mais uma desilusão - resolveu que finalmente conheceria o outro lado da vida. O lado B. De beijos intensos, de flertes e calores desconhecidos. E mesmo assim, após a infinita sequência de noites mal dormidas, de paixões noturnas, viu-se mais uma vez encantada por um rapaz. Alguém que julgou ser diferente daquela maioria que não oferecia mais que breves desejos, sem qualquer carinho, sem qualquer assistência emocional.
Enganada por sua própria necessidade de apego, resolveu oferecer uma chance àquele novo e possível amor.
Ele era calmo, educado. Vinha de uma família sem danos, sem traumas. Olívia se identificara com tais padrões e agora desejara paz. Se jogou na relação, mesmo sabendo que ele, apesar de cultivar carinho por ela, ainda amava a ex.
Passaram a se encontrar com frequência. Ele perguntava-lhe sobre seu dia, suas inquietações, seus horários. Dizia-lhe coisas doces, ternas. Cobrava-lhe saudade, presença. E finalmente, Olívia entendeu que deveria ser ele. Aquele que lhe cuidaria, que lhe salvaria do mundo louco no qual havia entrado por pura pirraça.
Passadas algumas semanas, Olívia via-se esforçando ao máximo para capturar tudo de bom que ele poderia sentir por ela. Percebera agora que, apesar de bondoso, ele possuía alguns defeitos. Mas, quem não os tem?
Num dado momento sentira necessidade de falar aos seus bons e velhos amigos de outrora, e num ato excessivo, seu novo namorado a proibira, alegando não existir amizade sincera entre homens e mulheres.
Tomada pela necessidade de manter a relação que julgava - quase - perfeita, aceitou as condições.
Olívia passara a ignorar as mensagens, as chamadas e os convites. Na sua convicção, já não fazia sentido alimentar algo que ''seu futuro marido'' julgava ser completamente fora de propósito.
Passado um período um pouco maior, as discussões se iniciaram com mais frequência. Desta vez, eram as roupas de Olívia que incomodavam. O short de cintura alta, o allstar pink que tanto gostava, os blazes estampados com imagens abstratas, o delineador preto em seus olhos.
Algo lhe parecia completamente errado, pois o ''grande amor de sua vida'' agora se recusava a sair se Olívia estivesse usando uma roupa ''fora dos padrões'', mesmo que isso representasse sua identidade. De sua boca, passara a escutar que tais roupas lhe deixavam ''ridícula''.
Decidida a amenizar os problemas em sua relação, passou a procurar roupas mais casuais.
Possuía um corpo magro e bonito, e nesse caso era muito difícil que uma roupa qualquer lhe caísse mal. Adotou uma identidade visual que não lhe parecia em nada com seus gostos, mas manteve.
Percebia agora que seu tão estimado namorado levantava a voz até pelo menor motivo. Se esquivava de entrar em redes sociais na sua presença e, por mais apaixonado que fosse, não lhe levava de forma alguma aos encontros de amigos da faculdade.
Ao invés disso, preferia deixar-lhe em casa, com orientações de SOMENTE sair na presença de sua mãe.
Ela finalmente percebeu a regressão de sua vida. Havia mudado e essa mudança sequer valia a pena.
Deixara tudo o que amava pra trás, e esse ato não era minimamente reconhecido.
Desconfiava quase todo o tempo das intenções de seu ''príncipe encantado'' perante as garotas da faculdade. E se submetia a tudo o que a mãe do rapaz queria e esperava dela, mesmo quando lhe parecia responsabilidade demais.
Passou a perder aniversários de família e o ápice de sua tristeza, foi perder a oportunidade de estar com o próprio pai no Dia dos Pais daquele ano e fazê-lo pelo simples fato de querer agradar à família de seu querido amado.
Olhou-se no espelho certa vez e não se reconheceu. Não identificava mais quem era e quem de fato queria ser. E passou a achar-se sempre feia, com a insistência do namorado que dizia ''Você tem que ser normal, ainda é muito diferente das outras meninas. Isso não é bom."
Finalmente, em uma de suas tantas discussões, ela resolveu partir daquela relação. Ele se recusara a aceitar. Gritara, injuriara e finalmente, chorara diante dela.
Comovida, Olívia viu-se disposta a dar-lhe uma segunda chance, visto que aquele lhe parecia o amor de sua vida.
Passando meses conturbados entre discussões leves e cobranças desmedidas, ela percebera nele a falta de pudor em lidar com as garotas que o procuravam. Sentia-se sozinha e buscava quem pudesse ajudá-la a resolver as questões que surgiam em sua cabeça, mas já não tinha quem estivesse à sua disposição. Seu grande amor havia afastado alguns de seus melhores amigos com insinuações. Outros amigos, a assistiam de longe sem que pudessem se intrometer. Seu grande amor havia deixado claro que considerava suas amigas como más influências, e Olívia - ingênua - acatara.
Após mais um desentendimento banal, ela finalmente decidira ir embora. Dessa vez, seu amado fora mais longe: A puxara pelo braço, deixando uma marca roxa. Depois, com esforço e mais algumas lágrimas, a convencera de ficar, de tentar novamente. Prometera mudar. Pedia-lhe perdão por estar tão descontrolado e jogava a responsabilidade desse ato no fato de não se sentir amado pela mãe, que preferia o irmão mais novo.
Olívia já sabia que não o amava. Que talvez nunca o tivesse amado.
Tinha consciência de tudo o que perdera em prol de amor que não representava mais nada.
Buscou refúgio. Sem faltar com respeito, sem ignorar sua relação, sem ofender ninguém.
Num de seus surtos de ciúmes, seu grande amado fuçou sua bolsa até localizar seu celular. Nele, encontrou uma única mensagem e isso bastou. Olívia, que jamais traíra o namorado, que já aguentara humilhações que incluíam vê-lo flertando descaradamente com outra mulher, agora era a moça mais promíscua e vulgar de que se tinha conhecimento.
Olívia, que se esforçara ao máximo pelo relacionamento, agora era chamada de vagabunda, mentirosa e todos os outros xingamentos que ele encontrou pra justificar uma mensagem que dizia ''Eu gostaria que você estivesse aqui para conversar comigo''.
Precisou levar o pouco que ainda restava de si.
Chorou. Desejou não ter ouvido tudo o que ouviu. Mas, em seu íntimo, Olívia agora era livre. E ela bem sabia disso.
Poderia recomeçar em qualquer lugar, sendo apenas quem ela era. E isso bastava naquele momento.
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