THERE'S NOTHING YOU CAN MAKE THAT CAN'T BE MADE.

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sexta-feira, 17 de abril de 2020

A felicidade mora num telefonema

Eu liguei para falar da vida, pra não falar de nada e pra contar tudo o que eu mais gosto de dividir.
Liguei e ao telefone eu ouvia meu pai rindo das piadinhas que continua fazendo às custas da minha mãe. As piadas que, de um jeito sempre cômico, a tornam um pouco mais feliz.
Eu, como sempre, me diverti ouvindo a dificuldade dos dois em conciliar o telefone, mesmo com a ligação em viva voz, a necessidade de sempre de um falar mais que o outro e ainda assim, como o casal que tem sua linguagem própria, sendo capaz de rir e me falar de suas rotinas que agora eram ainda mais simples dentro de uma quarentena.
Minha mãe, em tom de entregar as atividades do meu pai, enfatizou em um dado momento os últimos acontecimentos.
- É, Ju. Você sabia que o seu pai andou cantando esses dias? Colocou as músicas do Djavan em karaokê e ficou cantando aqui na sala.
Já cheia de orgulho eu quis desenvolver o assunto.
Ele, cheio de si e contraditoriamente envergonhado, me explicou com o seu olhar técnico de músico que nunca perde a veia artística:
- É, mas na verdade eu estava procurando os arranjos originais das músicas. Esses arranjos de karaokê são muito ruins.

Explodindo de felicidade pelo que eu acabara de descobrir, eu mencionei ter a minha música preferida (do djavan), a que carrego nesse pódio já desde muito pequena.
Ele me perguntou qual era e eu respondi: Rei do mar.

Em seguida, me pediu que cantasse um trechinho.
Eu iniciei a minha canção preferida e ouvi ele do outro lado da linha cantando comigo. Logo, ouvi a voz da minha mãe ao fundo - ela cantava também. Quando dei por mim, nós três estávamos cantando e eu só queria guardar aquele momento com tudo de mim que ele representava.

''Vou me perder no azul verde do mar, junto da manhã em busca da vida..."

Ele finalizou me dizendo que eu realmente a sei cantar. Naquela voz eu senti orgulho e agora já reconheço qual é o próximo plano artístico para concretizar quando estivermos juntos outra vez, depois que tudo isso acabar.

Que me importa a brisa fria, o brilho dos faróis,
Que me importa o fundo, a calmaria, o temporal,
Eu sou o rei, eu sou o rei, eu sou a rei do mar...




segunda-feira, 6 de abril de 2020

Avenida 9 de Julho

Eu passo pela portaria imaginando que o porteiro - que nunca dá bom dia pra ninguém - saiba quem sou eu e para qual dos apartamentos eu vou.
De uma forma um tanto pretensiosa, eu imagino que não existam muitas garotas ruivas (de farmácia) com cabelo curto e roupas como as minhas, que frequentem aquele edifício.
Sempre o mesmo elevador. E eu nunca deixo de pensar que pareço estar num prédio corporativo já que é grande demais para um prédio residencial.
Eu sempre me olho no espelho que me encara. É o que me faz ter noção das minhas imperfeições e do tamanho das falhas que aparentemente só eu encontro no meu rosto. E eu sempre reclamo de notá-las. E ainda assim, sempre escuto que continuo linda - Nem sei mais se eu acredito.
Sempre que adentro aquele apartamento de sabe-lá-deus quantos infinitos m², eu lavo as mãos no banheiro que, se fosse meu, teria uma banheira gigante - Também já pensei nisso uma porção de vezes.
Passo pela área comum dos garotos (não existe área das meninas, visto que nenhuma mora lá).
As garotas que surgem ali são praticamente todas passageiras e têm lugares específicos onde gostam de ficar.
Reconheço um deles como o meu preferido e onde eu me inclino pra ver o prédio da frente - que é o que eu mais gosto.
É nele que eu digo que vou morar, num dos apartamentos de cima com luzes leves e alaranjadas, cheio de plantas na sacada.
As vezes fico um longo tempo só olhando o movimento da rua e a forma como a arquitetura e as estruturas dos edifícios vizinhos parecem conversar entre si. E comigo, como se soubessem que eu adoro só olhar.
E admirar.
E mesmo indo embora no dia seguinte eu nunca me despeço por completo.
Talvez porque eu sempre acredite que mais tarde eu vou voltar.