"- Alô? Alô, Rubem... Ligaram da escola da Julia, ela não ta se sentindo bem. Pediram pra você ir buscá-la.
- Tudo bem. Pode deixar que eu já vou pra lá.
- Você demora pra sair do escritório?
- Não, vou agora mesmo. Depois eu volto e resolvo o restante das coisas."
Eu enxergava claramente pelo vidro da janela, enquanto ele estacionava o carro e seguia em direção à secretaria da escola. Batia no vidro, pedindo que alguém o deixasse entrar e finalmente me apanhava, e me salvava do que quer que eu estivesse sentido.
As dores e mal-estares começaram logo na minha primeira infância. Como a criança frágil que eu era, sequer conseguia conter uma dor de estômago sem que pra isso precisasse tomar algum medicamento, ou passar o dia em repouso.
Tendo consciência de algumas circunstâncias em casa, sabia que seria bem cuidada na casa dos meus avós de criação; a única família de avós, tios e padrinhos que conheci de fato, e cujas quais aprendi valores morais que me cercariam pelo resto da vida.
É uma das lembranças mais bonitas que tenho, e sei que se pudesse checar os cadernos de saída emergencial da escola onde estudei, as assinaturas dele estariam todas lá. E ele o fazia, sem sequer reclamar, ou exitar.
Não me lembro de uma só vez em que tenha me negado algo que eu pedisse. Sequer levantava a voz pra mim, mesmo no estágio mais teimoso da minha infância, não era o suficiente pra fazê-lo perder as estribeiras comigo.
Tinha o hábito de comprar junto ao pão diário, chocolates com desenhos em alto relevo, que ele costumava chamar de "surpresa" pra depois do jantar. Possuía manias divertidas, típicas de um senhor de idade que as preservava desde muito tempo. Molhava a banana nas lasquinhas que sobrava de pão na mesa, e cantarolava alto suas músicas preferidas, sem temer se os outros vizinhos lhe ouviriam.
E assim eram todos os dias. Todas as manhãs, tardes e noites. E mesmo após um ano, ainda sinto que o verei adentrar pela porta de madeira da sala, dizendo sorrindo: "Oi, gentêm!".
Ele faz falta, ainda faz falta.
sábado, 28 de julho de 2012
domingo, 10 de junho de 2012
"O velho e a moça"
‘’Tudo sempre tem uma razão de acontecer. Se você está em um lugar, é porque o universo conspirou por alguma razão para que você estivesse exatamente ali. E, pra isso existe um propósito.’’
Foi assim que Pedro começou nossa conversa naquela tarde, quando lhe telefonei.
Havia alguns dias que não nos falávamos, e decidi que seria mais apropriado ligar para saber sobre os últimos acontecimentos de sua vida.
Falamos por exatos 11 minutos e 56 segundos. Tempo esse que foi mais que suficiente para nossas demonstrações de afeto, cuidado, e obviamente, para acabar com os bônus diários do celular de uma garota que mesmo trabalhando muito, ainda se encontra abaixo do nível da classe média.
Na manhã daquele mesmo dia, eu já havia ligado para Eduardo, e combinamos que ele me levaria até a aula da noite, do meu curso para 1ª habilitação. Mesmo assim, eu sabia que minha vontade em falar com ele antes de dormir seria maior, e que por conta dos bônus escassos, isso não seria possível a menos que eu recarregasse meu celular novamente.
Segui até o supermercado do bairro.
Entrei na menor fila de caixa que encontrei. Na minha direção, vinha um senhor, com uma certa dificuldade em segurar os itens que pretendia comprar. Tinha a pele bastante enrugada, com algumas pintas escuras no rosto que estava coberto por uma barba inteiramente grisalha e ondulada. A roupa simples e amarrotada, e a boina marrom davam a ele um ar distinto.
Pedi que ele passasse na minha frente, mesmo sabendo que meu horário de almoço acabaria dali 6 minutos. Ele não aceitou de início. Pareceu não querer me incomodar, mas insisti que ele o fizesse, e sorrindo, ele finalmente se posicionou na minha frente.
- Vai só recarregar seu celular? – Ele me perguntou, tentando ser gentil.
- Sim, só isso mesmo – Eu respondi sorrindo, usando de um pouco mais de educação.
Ele pareceu lisonjeado com minha atitude e então me elogiou.
- Você tem um sorriso bonito.
- Ah, obrigada... – Eu agradeci, um tanto tímida e sem graça.
- Realmente, um sorriso muito bonito – Ele insistiu – Qual é o seu nome, mocinha?
- Julia – Respondi claramente.
- ‘’Julia’’ – Ele repetiu – É um lindo nome.
Agradeci mais uma vez.
- Julia, seu sorriso é bonito, tão bonito que vou lhe dar um presente – Ele mencionou, enquanto colocava suas compras em cima do balcão do caixa.
- Ah, magina... – Tentei negar, para que ele não se sentisse obrigado a retribuir minha gentileza em deixá-lo passar na frente. Imaginei que talvez por isso ele quisesse fazer algo ali por mim.
- Sabe, eu vou lhe dar um presente. A felicidade – Ele continuou – Vou lhe dar a felicidade e o valor de um sorriso.
Fiquei confusa sobre o que ele estaria falando, até que ele retirou de sua bolsa de couro surrado, um envelope. Estendeu uma das mãos e me entregou.
- Pode abrir agora, se quiser – Ele sorriu.
Comecei a abrir o envelope com cautela para não rasgá-lo em suas extremidades. Dentro dele havia dois papéis no tamanho de uma folha de sulfite, dizeres em um papel cartão amarelo, e um mini-cartão envolvido por um plástico, onde continha uma oração da ONU.
- Aí, você vai descobrir o valor do sorriso – Ele começou a me explicar.
‘’O valor de um sorriso’’, era o título do texto que havia no papel cartão amarelo. Comecei a ler, e conseqüentemente a sorrir. Ele notou um certo entusiasmo vindo de mim, e me perguntou:
- Qual é o nome do seu amado?
- Eduardo – Respondi, deixando de olhar para o papel com o texto e passando a olhar novamente para o senhor à minha frente.
- Também é um nome bonito – Ele acrescentou, enquanto procurava pelas notas de dinheiro em sua carteira – Diga para ele ler ‘’A felicidade’’.
‘’A felicidade’’ era um dos papéis sulfite que estavam dentro do envelope. Era um texto, que ali, pelo momento, não tive tempo de ler.
O outro papel continha um texto cujo título era ‘’Retrato de mãe’’.
Ele fez o pagamento de suas compras, olhou para as duas barras de chocolate que havia comprado, e se permitiu uma piada antes de ir embora de vez:
- Sabe por que eu compro chocolate amargo? – Perguntou em tom de charada.
Eu e a atendente nos olhamos, sorrimos e respondemos que não sabíamos o por quê.
- Porque a vida é doce – Ele riu.
Foi nesse momento em que senti uma absoluta vontade de deixar escorrer as lágrimas que surgiram nos meus olhos. Fui firme, e apenas me despedi. Mas, não poderia deixá-lo ir sem nem ao menos saber seu nome.
- Desculpe... mas como o senhor se chama?
- Valdomiro – Ele respondeu, recolhendo as compras do caixa e sorrindo pra mim um ultimo momento.
Ao sair do Supermercado, notei que aquele senhor manuseava um carro velho e simples, que eu não pude distinguir a marca.
Ele era feliz, e isso era o que bastava.
Não se queixava por conta da idade avançada, e nem ao menos por sua situação financeira aparente. Era um homem simples, e seu carro era tão simples quanto.
A bolsa que levava com o envelope que me deu, provavelmente carregava uma expectativa. A expectativa de que todos pensassem como ele por um momento, e se sentissem completos por isso.
E não posso esquecer de voltar ao ponto inicial, ‘’tudo sempre tem uma razão de acontecer’’. A frase dita por Pedro alguns minutos antes naquele mesmo dia fez todo o sentido. Afinal, se eu não tivesse ligado para Pedro e passado 11min e 56 seg numa conversa com ele, meus bônus jamais acabariam. Se meus bônus não tivessem acabo naquele horário, e eu ignorasse meu desejo em falar com o Eduardo futuramente, não teria sentido a necessidade de recarregar meu celular, e a conversa com o senhor Valdomiro jamais teria acontecido. Se eu não o tivesse encontrado, provavelmente não sentiria a absoluta vontade em tornar minha vida mais ‘’doce’’.
Os dois textos que qualquer um deveria ler:
‘’A Felicidade’’:
‘’Olá, Meu nome é Felicidade, faço parte da vida daqueles que tem amigos, pois ter amigos é ser feliz. Faço parte da vida daqueles que vivem cercados por pessoas como você, pois viver é ser feliz demais. Faço parte da vida daqueles que acreditam que ontem é passado, amanhã é futuro e hoje uma dádiva, por isso é chamado de Presente. Faço parte da vida daqueles que acreditam na força do amor, que acreditam que para uma história bonita não há ponto final. Eu sou casada sabiam? Sou casada com o Tempo. Ah, Meu marido é lindo demais! Ele é responsável pela resolução de todos os problemas, e ainda constrói corações, de cura machucados, ele vence a tristeza. Juntos, eu e o Tempo, tivemos três filhos: a Amizade, a Sabedoria e o Amor.
A Amizade é a filha mais velha, uma menina linda, sincera, alegre. A Amizade brilha como o sol, a Amizade une pessoas, pretende nunca ferir e sempre consolar. A do meio é a Sabedoria, culta, integra, sempre foi a mais apegada ao pai. A Sabedoria e o Tempo andam sempre juntos. O caçula é o Amor. Ah! Como esse me dá trabalho! É teimoso e às vezes só quer morar em um lugar. Eu vivo dizendo: Amor, você foi feito para morar em muitos corações e não apenas em um. O Amor é complexo mais é lindo, muito lindo! Quando ele começa a fazer estragos eu chamo logo o pai dele, o Tempo, então o Tempo sai fechando todas as feridas que o Amor abriu. Uma pessoa me ensinou o seguinte: tudo na vida sempre dá certo, se ainda não deu é porque não chegou o final. Por isso acredite na minha família. Acredite, no Tempo, na Amizade, na Sabedoria e principalmente no Amor.’’
‘’Valor de um sorriso’’
‘’Não custa nada e rende muito. Enriquece quem o recebe, sem empobrecer quem o dá. Dura somente um instante, mas seus efeitos perduram para sempre. Ninguém é tão rico que dele não precise. Ninguém é tão pobre que não possa dar.
Leva a felicidade a todos e a toda parte. É símbolo da amizade, da boa vontade, é alento para os desanimados, repouso para os cansados, raio de sol para os tristes, ressurreição para os desesperados. Não se compra nem se empresta. Não há ninguém que precise tanto dele, como aquele que não sabe sorrir.
Quando você nasceu, todos sorriam e só você chorava; viva de tal maneira que, quando você morrer todos chorem e somente você sorria.’’
Foi assim que Pedro começou nossa conversa naquela tarde, quando lhe telefonei.
Havia alguns dias que não nos falávamos, e decidi que seria mais apropriado ligar para saber sobre os últimos acontecimentos de sua vida.
Falamos por exatos 11 minutos e 56 segundos. Tempo esse que foi mais que suficiente para nossas demonstrações de afeto, cuidado, e obviamente, para acabar com os bônus diários do celular de uma garota que mesmo trabalhando muito, ainda se encontra abaixo do nível da classe média.
Na manhã daquele mesmo dia, eu já havia ligado para Eduardo, e combinamos que ele me levaria até a aula da noite, do meu curso para 1ª habilitação. Mesmo assim, eu sabia que minha vontade em falar com ele antes de dormir seria maior, e que por conta dos bônus escassos, isso não seria possível a menos que eu recarregasse meu celular novamente.
Segui até o supermercado do bairro.
Entrei na menor fila de caixa que encontrei. Na minha direção, vinha um senhor, com uma certa dificuldade em segurar os itens que pretendia comprar. Tinha a pele bastante enrugada, com algumas pintas escuras no rosto que estava coberto por uma barba inteiramente grisalha e ondulada. A roupa simples e amarrotada, e a boina marrom davam a ele um ar distinto.
Pedi que ele passasse na minha frente, mesmo sabendo que meu horário de almoço acabaria dali 6 minutos. Ele não aceitou de início. Pareceu não querer me incomodar, mas insisti que ele o fizesse, e sorrindo, ele finalmente se posicionou na minha frente.
- Vai só recarregar seu celular? – Ele me perguntou, tentando ser gentil.
- Sim, só isso mesmo – Eu respondi sorrindo, usando de um pouco mais de educação.
Ele pareceu lisonjeado com minha atitude e então me elogiou.
- Você tem um sorriso bonito.
- Ah, obrigada... – Eu agradeci, um tanto tímida e sem graça.
- Realmente, um sorriso muito bonito – Ele insistiu – Qual é o seu nome, mocinha?
- Julia – Respondi claramente.
- ‘’Julia’’ – Ele repetiu – É um lindo nome.
Agradeci mais uma vez.
- Julia, seu sorriso é bonito, tão bonito que vou lhe dar um presente – Ele mencionou, enquanto colocava suas compras em cima do balcão do caixa.
- Ah, magina... – Tentei negar, para que ele não se sentisse obrigado a retribuir minha gentileza em deixá-lo passar na frente. Imaginei que talvez por isso ele quisesse fazer algo ali por mim.
- Sabe, eu vou lhe dar um presente. A felicidade – Ele continuou – Vou lhe dar a felicidade e o valor de um sorriso.
Fiquei confusa sobre o que ele estaria falando, até que ele retirou de sua bolsa de couro surrado, um envelope. Estendeu uma das mãos e me entregou.
- Pode abrir agora, se quiser – Ele sorriu.
Comecei a abrir o envelope com cautela para não rasgá-lo em suas extremidades. Dentro dele havia dois papéis no tamanho de uma folha de sulfite, dizeres em um papel cartão amarelo, e um mini-cartão envolvido por um plástico, onde continha uma oração da ONU.
- Aí, você vai descobrir o valor do sorriso – Ele começou a me explicar.
‘’O valor de um sorriso’’, era o título do texto que havia no papel cartão amarelo. Comecei a ler, e conseqüentemente a sorrir. Ele notou um certo entusiasmo vindo de mim, e me perguntou:
- Qual é o nome do seu amado?
- Eduardo – Respondi, deixando de olhar para o papel com o texto e passando a olhar novamente para o senhor à minha frente.
- Também é um nome bonito – Ele acrescentou, enquanto procurava pelas notas de dinheiro em sua carteira – Diga para ele ler ‘’A felicidade’’.
‘’A felicidade’’ era um dos papéis sulfite que estavam dentro do envelope. Era um texto, que ali, pelo momento, não tive tempo de ler.
O outro papel continha um texto cujo título era ‘’Retrato de mãe’’.
Ele fez o pagamento de suas compras, olhou para as duas barras de chocolate que havia comprado, e se permitiu uma piada antes de ir embora de vez:
- Sabe por que eu compro chocolate amargo? – Perguntou em tom de charada.
Eu e a atendente nos olhamos, sorrimos e respondemos que não sabíamos o por quê.
- Porque a vida é doce – Ele riu.
Foi nesse momento em que senti uma absoluta vontade de deixar escorrer as lágrimas que surgiram nos meus olhos. Fui firme, e apenas me despedi. Mas, não poderia deixá-lo ir sem nem ao menos saber seu nome.
- Desculpe... mas como o senhor se chama?
- Valdomiro – Ele respondeu, recolhendo as compras do caixa e sorrindo pra mim um ultimo momento.
Ao sair do Supermercado, notei que aquele senhor manuseava um carro velho e simples, que eu não pude distinguir a marca.
Ele era feliz, e isso era o que bastava.
Não se queixava por conta da idade avançada, e nem ao menos por sua situação financeira aparente. Era um homem simples, e seu carro era tão simples quanto.
A bolsa que levava com o envelope que me deu, provavelmente carregava uma expectativa. A expectativa de que todos pensassem como ele por um momento, e se sentissem completos por isso.
E não posso esquecer de voltar ao ponto inicial, ‘’tudo sempre tem uma razão de acontecer’’. A frase dita por Pedro alguns minutos antes naquele mesmo dia fez todo o sentido. Afinal, se eu não tivesse ligado para Pedro e passado 11min e 56 seg numa conversa com ele, meus bônus jamais acabariam. Se meus bônus não tivessem acabo naquele horário, e eu ignorasse meu desejo em falar com o Eduardo futuramente, não teria sentido a necessidade de recarregar meu celular, e a conversa com o senhor Valdomiro jamais teria acontecido. Se eu não o tivesse encontrado, provavelmente não sentiria a absoluta vontade em tornar minha vida mais ‘’doce’’.
Os dois textos que qualquer um deveria ler:
‘’A Felicidade’’:
‘’Olá, Meu nome é Felicidade, faço parte da vida daqueles que tem amigos, pois ter amigos é ser feliz. Faço parte da vida daqueles que vivem cercados por pessoas como você, pois viver é ser feliz demais. Faço parte da vida daqueles que acreditam que ontem é passado, amanhã é futuro e hoje uma dádiva, por isso é chamado de Presente. Faço parte da vida daqueles que acreditam na força do amor, que acreditam que para uma história bonita não há ponto final. Eu sou casada sabiam? Sou casada com o Tempo. Ah, Meu marido é lindo demais! Ele é responsável pela resolução de todos os problemas, e ainda constrói corações, de cura machucados, ele vence a tristeza. Juntos, eu e o Tempo, tivemos três filhos: a Amizade, a Sabedoria e o Amor.
A Amizade é a filha mais velha, uma menina linda, sincera, alegre. A Amizade brilha como o sol, a Amizade une pessoas, pretende nunca ferir e sempre consolar. A do meio é a Sabedoria, culta, integra, sempre foi a mais apegada ao pai. A Sabedoria e o Tempo andam sempre juntos. O caçula é o Amor. Ah! Como esse me dá trabalho! É teimoso e às vezes só quer morar em um lugar. Eu vivo dizendo: Amor, você foi feito para morar em muitos corações e não apenas em um. O Amor é complexo mais é lindo, muito lindo! Quando ele começa a fazer estragos eu chamo logo o pai dele, o Tempo, então o Tempo sai fechando todas as feridas que o Amor abriu. Uma pessoa me ensinou o seguinte: tudo na vida sempre dá certo, se ainda não deu é porque não chegou o final. Por isso acredite na minha família. Acredite, no Tempo, na Amizade, na Sabedoria e principalmente no Amor.’’
‘’Valor de um sorriso’’
‘’Não custa nada e rende muito. Enriquece quem o recebe, sem empobrecer quem o dá. Dura somente um instante, mas seus efeitos perduram para sempre. Ninguém é tão rico que dele não precise. Ninguém é tão pobre que não possa dar.
Leva a felicidade a todos e a toda parte. É símbolo da amizade, da boa vontade, é alento para os desanimados, repouso para os cansados, raio de sol para os tristes, ressurreição para os desesperados. Não se compra nem se empresta. Não há ninguém que precise tanto dele, como aquele que não sabe sorrir.
Quando você nasceu, todos sorriam e só você chorava; viva de tal maneira que, quando você morrer todos chorem e somente você sorria.’’
segunda-feira, 26 de março de 2012
40 minutos
Olhei-o de bem perto. E milhares de coisas vieram ao meu pensamento.
"Ele fica mais bonito a cada semana que passa", pensei. E depois sorri, feito uma boba.
Ele me notou por um momento, e me perguntou o por quê daquele sorriso, como se o estivesse fitando pela primeira vez, ainda fascinada. Respondi apenas que não sabia, e ele também sorriu.
Encostou uma das mãos sob o volante, e em seguida me pediu para deitar em seu colo, enquanto mantinha o carro estacionado.
Me recostei sobre o peito dele, e subi os pés descalços para o banco do carona.
Ele me contou sobre os tão complexos exercícios que acabara de completar, para um trabalho que deveria ser entregue na semana seguinte. Falou orgulhoso sobre como seus atuais projetos de faculdade estavam se saindo, e de quantos ele ainda teria de entregar até que o semestre terminasse.
Ligou o rádio e procurou uma boa estação.
Falamos sobre nossas tantas banalidades, e o deixei a par de assuntos alheios pouco relevantes. Me perguntou sobre meu dia, e insistiu em tentar me fazer cócegas.
Me inclinei, e comecei a enchê-lo de beijos. Beijava-lhe os lábios, as bochechas, o queixo, o nariz, os olhos, a testa. Ele apenas ria, me chamando de maluca.
E ao me despedir, cheia daquela saudade não totalmente suprida, sorri mais uma vez como a boba que pareço ser, como se tivesse passado dentro daquele carro, muito mais que breves 40 minutos.
"Ele fica mais bonito a cada semana que passa", pensei. E depois sorri, feito uma boba.
Ele me notou por um momento, e me perguntou o por quê daquele sorriso, como se o estivesse fitando pela primeira vez, ainda fascinada. Respondi apenas que não sabia, e ele também sorriu.
Encostou uma das mãos sob o volante, e em seguida me pediu para deitar em seu colo, enquanto mantinha o carro estacionado.
Me recostei sobre o peito dele, e subi os pés descalços para o banco do carona.
Ele me contou sobre os tão complexos exercícios que acabara de completar, para um trabalho que deveria ser entregue na semana seguinte. Falou orgulhoso sobre como seus atuais projetos de faculdade estavam se saindo, e de quantos ele ainda teria de entregar até que o semestre terminasse.
Ligou o rádio e procurou uma boa estação.
Falamos sobre nossas tantas banalidades, e o deixei a par de assuntos alheios pouco relevantes. Me perguntou sobre meu dia, e insistiu em tentar me fazer cócegas.
Me inclinei, e comecei a enchê-lo de beijos. Beijava-lhe os lábios, as bochechas, o queixo, o nariz, os olhos, a testa. Ele apenas ria, me chamando de maluca.
E ao me despedir, cheia daquela saudade não totalmente suprida, sorri mais uma vez como a boba que pareço ser, como se tivesse passado dentro daquele carro, muito mais que breves 40 minutos.
quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012
Sob um céu de blues
- Você sempre vai me proteger?
- O que é que te fizeram?
- Como você sabe que tem algo errado?
- Te conheço.
Ele sorriu pra mim. Como se todo o ocorrido já não bastasse. Como se todo o passado não importasse. Me abraçou forte, como se fosse o primeiro de muitos, ou o último de tão poucos. E nós nos sentamos.
Ele quis me contar cada detalhe da sua imprevisível vida nos últimos meses.
Foi me conduzindo a assuntos que antes nos feriam, que antes doíam.
Nos flagramos sonhando com o futuro, futuro este que não me pareceu tão distante. Ele se permitiu mencionar e enfatizar mais uma vez a questão que fazia de ter meu ponto de vista como referência.
E foi assim.
Caminhamos e sorrimos.
E é como sempre me sinto, crente de um destino que ainda vai se concretizar, justamente por saber que preciso de um ‘Hey Jude’ que venha de seu violão, e aquela bela mania que tem de me mostrar o lado bom de tudo, como se esse tudo fosse breve demais para durar por toda a eternidade.
Seu entusiasmo me comove, e sempre cativa. Se assemelha ao longe com um de nossos ídolos, de tempos, já tão distinto.
Tão jovem e sábio. Tão ingênuo e inconsequente.
E ele acena pra mim. Se despede num leve abraço, e promete, que no próximo mês ele vai voltar...
- O que é que te fizeram?
- Como você sabe que tem algo errado?
- Te conheço.
Ele sorriu pra mim. Como se todo o ocorrido já não bastasse. Como se todo o passado não importasse. Me abraçou forte, como se fosse o primeiro de muitos, ou o último de tão poucos. E nós nos sentamos.
Ele quis me contar cada detalhe da sua imprevisível vida nos últimos meses.
Foi me conduzindo a assuntos que antes nos feriam, que antes doíam.
Nos flagramos sonhando com o futuro, futuro este que não me pareceu tão distante. Ele se permitiu mencionar e enfatizar mais uma vez a questão que fazia de ter meu ponto de vista como referência.
E foi assim.
Caminhamos e sorrimos.
E é como sempre me sinto, crente de um destino que ainda vai se concretizar, justamente por saber que preciso de um ‘Hey Jude’ que venha de seu violão, e aquela bela mania que tem de me mostrar o lado bom de tudo, como se esse tudo fosse breve demais para durar por toda a eternidade.
Seu entusiasmo me comove, e sempre cativa. Se assemelha ao longe com um de nossos ídolos, de tempos, já tão distinto.
Tão jovem e sábio. Tão ingênuo e inconsequente.
E ele acena pra mim. Se despede num leve abraço, e promete, que no próximo mês ele vai voltar...
quarta-feira, 30 de novembro de 2011
Constante
Eu sempre soube, mesmo quando fingi não saber, mesmo quando tudo o que eu mais queria era depender apenas de mim. De mim e das minhas próprias vontades. Vontades essas providas da minha ilusória liberdade.
Passei semanas presa nas lamentações de me sentir tão só, imaginando que por mais que eu me esforçasse, sempre aprisionaria em mim aquele amor bom e desesperado que escondo dele, pra que não se sinta tão sufocado com as minhas atitudes ou simplesmente com a minha presença.
Mas é curiosa a maneira como o vejo, e o jeito como consigo reprojetar todos os meus planos em questão de segundos. Basta olhar pra ele.
Realmente, olhar diretamente nos olhos dele é como encontrar a razão viável pra amanhecer sorrindo, por mais ridiculamente poético que isso possa parecer.
Disfarço. Me distraio com as demais pessoas na rua, ou com os outdoors da avenida. Me flagro até mesmo fitando o céu, tentando descobrir se vai chover. Tudo pra não deixar que ele perceba o quão meus olhos ainda brilham.
Então, por mais de uma vez segui-se assim:
Lavo os dois pratos que usamos na última meia-hora, seco a pia e ele sorri pra mim. Faz uma piadinha infame às minhas custas e reclama das vezes em que eu ajo como "mãe", mesmo que no fundo se sinta extremamente orgulhoso por isso.
Passa por mim em seguida, quase sem me notar, e eu exijo um beijo pelo esforço de manter tudo em ordem.
Ele me puxa inesperadamente pela cintura, me segura com força e se inclina comigo, me beijando como se fosse o galã de um típico filme antigo.
Não suportando a cena, paro de beijá-lo e começo a rir nos braços dele. Ao me soltar, ele sobe as escadas correndo, pra que eu vá atrás dele.
E ali estamos nós, outra vez...
Passei semanas presa nas lamentações de me sentir tão só, imaginando que por mais que eu me esforçasse, sempre aprisionaria em mim aquele amor bom e desesperado que escondo dele, pra que não se sinta tão sufocado com as minhas atitudes ou simplesmente com a minha presença.
Mas é curiosa a maneira como o vejo, e o jeito como consigo reprojetar todos os meus planos em questão de segundos. Basta olhar pra ele.
Realmente, olhar diretamente nos olhos dele é como encontrar a razão viável pra amanhecer sorrindo, por mais ridiculamente poético que isso possa parecer.
Disfarço. Me distraio com as demais pessoas na rua, ou com os outdoors da avenida. Me flagro até mesmo fitando o céu, tentando descobrir se vai chover. Tudo pra não deixar que ele perceba o quão meus olhos ainda brilham.
Então, por mais de uma vez segui-se assim:
Lavo os dois pratos que usamos na última meia-hora, seco a pia e ele sorri pra mim. Faz uma piadinha infame às minhas custas e reclama das vezes em que eu ajo como "mãe", mesmo que no fundo se sinta extremamente orgulhoso por isso.
Passa por mim em seguida, quase sem me notar, e eu exijo um beijo pelo esforço de manter tudo em ordem.
Ele me puxa inesperadamente pela cintura, me segura com força e se inclina comigo, me beijando como se fosse o galã de um típico filme antigo.
Não suportando a cena, paro de beijá-lo e começo a rir nos braços dele. Ao me soltar, ele sobe as escadas correndo, pra que eu vá atrás dele.
E ali estamos nós, outra vez...
segunda-feira, 28 de novembro de 2011
Ciclo vicioso
Algumas injúrias, uma discussão sem fundamento e sem propósito exato, e o silêncio, que dura pouco mais de meio minuto.
E vem sendo assim desde o momento em que o conheci. Agimos dessa maneira desde que eu me dispus a ser a ‘’amiga da faculdade’’, ou ‘’ a garota do amigo da faculdade’’. Embora, é claro, existissem antes algumas outras definições pejorativas, que não me cabe citar no momento.
Desconfio de que ele sempre me viu exatamente assim. Sempre enfatizou meus defeitos e meus pontos fracos, sempre espreitou nossa relação de amizade, só para se defender do encanto que mantinha por mim, na época em que eu preferia não ser tão paciente ou tão consequente quanto agora.
Costuma tentar se convencer de que o meu passado já não faz diferença, mas ele mente pra si mesmo cada vez que tenta se aproximar de mim. Julga ter um sentimento que eu não retribuo, um carinho que eu não supro.
E tudo o que me resta é lamentar por isso.
Me critica e me condenar por uma reação que não tenho, ou pela coragem que me faltou outrora. E finge que nunca descobriu todos os meus segredos.
Mal sei dizer se ele procurou meu sorriso por aí, em qualquer canto, ou qualquer esquina. Tudo o que me lembro agora é da vez em que chorei, naquela ânsia reprimida de saber a verdade sobre quem me cercava, e partido disso, o modo frígido com o qual ele me ouviu, e se desculpou. O odiei naquele exato momento, e desejei que nunca mais surgisse na minha frente outra vez. Dados alguns minutos, me lembro claramente, só pude sentir a ardência dos olhos, concedida por conta de alguns instantes de choro, e daquela estúpida falta de ar.
Ele nunca mais veio até mim, e esperou que eu o fizesse.
Por me conhecer tão bem, sabia sobre minha maneira ridiculamente previsível de ser.
Imagino que talvez ele tenha insistido em algo que eu mesma também quis acreditar, e por essa razão, ou por qualquer outra, passou a me definir algumas vezes como um curioso "Raio de Sol". Eu me sentia livre o suficiente pra me expressar de que maneira fosse, sem que ele me detestasse por isso.
E lá estava eu, relembrando os poucos fragmentos do que eu costumava chamar de "pseudo-amizade".
O mundo gira, e por contraditoriedade, nada muda. Nada nunca muda.
Exceto talvez esse amor breve dele por mim. Amor esse que nunca passa, e nunca acaba, ou já se acabou a mais tempo do que o previsto.
E dessas mesmas injúrias que guardam o carinho que sempre escondi, e que não sei mais expressar.
Desisto, e peço apenas pra que ele se cuide, perto ou especialmente, longe de mim.
E vem sendo assim desde o momento em que o conheci. Agimos dessa maneira desde que eu me dispus a ser a ‘’amiga da faculdade’’, ou ‘’ a garota do amigo da faculdade’’. Embora, é claro, existissem antes algumas outras definições pejorativas, que não me cabe citar no momento.
Desconfio de que ele sempre me viu exatamente assim. Sempre enfatizou meus defeitos e meus pontos fracos, sempre espreitou nossa relação de amizade, só para se defender do encanto que mantinha por mim, na época em que eu preferia não ser tão paciente ou tão consequente quanto agora.
Costuma tentar se convencer de que o meu passado já não faz diferença, mas ele mente pra si mesmo cada vez que tenta se aproximar de mim. Julga ter um sentimento que eu não retribuo, um carinho que eu não supro.
E tudo o que me resta é lamentar por isso.
Me critica e me condenar por uma reação que não tenho, ou pela coragem que me faltou outrora. E finge que nunca descobriu todos os meus segredos.
Mal sei dizer se ele procurou meu sorriso por aí, em qualquer canto, ou qualquer esquina. Tudo o que me lembro agora é da vez em que chorei, naquela ânsia reprimida de saber a verdade sobre quem me cercava, e partido disso, o modo frígido com o qual ele me ouviu, e se desculpou. O odiei naquele exato momento, e desejei que nunca mais surgisse na minha frente outra vez. Dados alguns minutos, me lembro claramente, só pude sentir a ardência dos olhos, concedida por conta de alguns instantes de choro, e daquela estúpida falta de ar.
Ele nunca mais veio até mim, e esperou que eu o fizesse.
Por me conhecer tão bem, sabia sobre minha maneira ridiculamente previsível de ser.
Imagino que talvez ele tenha insistido em algo que eu mesma também quis acreditar, e por essa razão, ou por qualquer outra, passou a me definir algumas vezes como um curioso "Raio de Sol". Eu me sentia livre o suficiente pra me expressar de que maneira fosse, sem que ele me detestasse por isso.
E lá estava eu, relembrando os poucos fragmentos do que eu costumava chamar de "pseudo-amizade".
O mundo gira, e por contraditoriedade, nada muda. Nada nunca muda.
Exceto talvez esse amor breve dele por mim. Amor esse que nunca passa, e nunca acaba, ou já se acabou a mais tempo do que o previsto.
E dessas mesmas injúrias que guardam o carinho que sempre escondi, e que não sei mais expressar.
Desisto, e peço apenas pra que ele se cuide, perto ou especialmente, longe de mim.
quarta-feira, 9 de novembro de 2011
Peculiaridades em comum
Eu não esperava por uma noite tão quente. Mas, veja só como é o tempo. A meteorologia insistiu que a temperatura não passaria dos 25ºC, mas eu poderia garantir que naquela noite fazia pouco mais que 30ºC.
Segui rumo ao prédio, onde subindo dois lances de escadas acharia a minha sala. Infelizmente criei uma absoluta impaciência por aulas pouco produtivas, não conseguindo sequer fingir interesse pela meia dúzia de palavras que o graduado professor insistia em citar.
Contei os minutos no relógio do celular, abrindo-o de segundos em segundos só pra ter certeza de que não seria deselegante interromper a aula pra sair da sala antes do horário devido.
Encontrei-o a poucos metros do prédio ao lado oposto. Sabia que ele estaria ali se a moto também estivesse. Ele me sorriu e me cumprimentou como se não me visse há tempos. Perguntou sobre a minha ausência da última semana, e pra ele eu realmente poderia ser sincera e dizer: ‘’Estava cansada, não tenho tido vontade de vir estudar’’. Ele deu risada e concordou comigo.
Iniciamos nossa conversa diária, falando sobre poucas banalidades, até eu notar que as feições dele haviam mudado. De certo, ele queria me contar algo que tinha quase certeza que poderia ser da minha total desaprovação.
Começou a falar devagar, e um tanto discretamente, mas eu logo o interrompi com um nome. Eu tinha o péssimo habito de saber deduzir quase tudo o que ele me diria, e isso já não o espantava. Chegava a ser até um tanto divertido.
Passamos a conversar mais seriamente sobre o assunto, e conselhá-lo fez com que eu me sentisse mais útil.
Ele sugeriu que fossemos até o bar ali próximo e tomássemos uma cerveja. Eu normalmente negaria, ou inventaria qualquer desculpa meramente viável, mas a noite estava realmente quente e propícia; e de qualquer maneira eu não gostaria de interromper nossa conversa tão promissora.
O bar estava absurdamente cheio. Pensei que se talvez somasse todas as pessoas nos prédios da faculdade, não chegaria à soma das pessoas na fila para compra de cerveja, e das outras tantas sentadas nas mesas dali.
Ele falava sobre o passado, sobre ela, e achei lindo o modo como a descrevia, como a mencionava. Até cheguei a dizer que não imaginava que ninguém um dia falasse de mim daquele jeito, como ele falava dela. E foi então que citei: ‘’Tenho medo de ser a coadjuvante da minha história, ao invés de ser a protagonista’’. Ele deu de ombros e mal me ouviu, e então passamos a analisar as pessoas em frente a nós na fila.
Compramos uma garrafa grande e saímos rapidamente de lá. Ele notou quando um rapaz me fitou sem disfarçar, e debochou. Caminhamos até o lado do prédio que sempre costumávamos ficar. Logo que sentou no chão, acendeu seu cigarro e começou a filosofar.
Conversávamos sobre tudo o que seria viável conversar. Em alguns momentos, ele me dava breves e claras injeções de realidade.
Ele ousou até mesmo arriscar um palpite sobre mim: ‘’Te sinto meio triste de uns tempos pra cá. Sei lá, posso estar errado, mas mesmo quando você fala sobre algo alegre tem esse tom e esses olhos de melancolia’’.
Com alguns goles a mais na cerveja, aos poucos fui descarregando todo o peso que eu sentia sobre determinadas circunstâncias. Ele ouvia com atenção e continuava me aconselhando também.
‘’Já sentiu que você não é totalmente você por alguma razão?’’ foi uma pergunta retórica que ele acabou dirigindo a mim, e eu concordei. Mas também tentei justificar.
Ele concordava e discordava de mim em diferentes aspectos. Disse também, que além da garota de quem falava até então, eu era a única a quem ele não sabia persuadir.
Passei a expressar também meus sentimentos sobre o garoto com quem continuei envolvida mais tarde.
O calor permanecia, e com a nossa conversa produtiva eu fui perdendo qualquer noção de tempo. A rua passou a ser totalmente deserta.
Deitei no chão, apoiei as pernas na parede ao lado, e por um momento me senti livre de qualquer responsabilidade. Olhei pro céu, e apesar do clima quente e confortável, só vi uma estrela brilhando aquela noite.
Me vendo daquele jeito, ele se sentiu confortável o suficiente pra deitar na minha barriga, e passar assim a fitar o céu juntamente comigo. Colocou músicas do próprio celular pra tocar; músicas de nosso gosto em comum, e passamos a falar sobre séries de tv com ótimas trilhas sonoras e sobre bandas que eram nossas inspirações no passado.
Percebi que já era tarde, e tive que me despedir. Ele insistiu pra que fizemos aquilo outra vez, prometi que o faríamos; e fomos pra lados opostos.
Voltei pra casa ao som de Automatic Stop - do Strokes - aquela noite, tentando entender em que momento exatamente eu poderia prever que ele, o garoto inconsequente dos olhos de diamante, se tornaria meu leal confidente (ou algo que o valha).
Segui rumo ao prédio, onde subindo dois lances de escadas acharia a minha sala. Infelizmente criei uma absoluta impaciência por aulas pouco produtivas, não conseguindo sequer fingir interesse pela meia dúzia de palavras que o graduado professor insistia em citar.
Contei os minutos no relógio do celular, abrindo-o de segundos em segundos só pra ter certeza de que não seria deselegante interromper a aula pra sair da sala antes do horário devido.
Encontrei-o a poucos metros do prédio ao lado oposto. Sabia que ele estaria ali se a moto também estivesse. Ele me sorriu e me cumprimentou como se não me visse há tempos. Perguntou sobre a minha ausência da última semana, e pra ele eu realmente poderia ser sincera e dizer: ‘’Estava cansada, não tenho tido vontade de vir estudar’’. Ele deu risada e concordou comigo.
Iniciamos nossa conversa diária, falando sobre poucas banalidades, até eu notar que as feições dele haviam mudado. De certo, ele queria me contar algo que tinha quase certeza que poderia ser da minha total desaprovação.
Começou a falar devagar, e um tanto discretamente, mas eu logo o interrompi com um nome. Eu tinha o péssimo habito de saber deduzir quase tudo o que ele me diria, e isso já não o espantava. Chegava a ser até um tanto divertido.
Passamos a conversar mais seriamente sobre o assunto, e conselhá-lo fez com que eu me sentisse mais útil.
Ele sugeriu que fossemos até o bar ali próximo e tomássemos uma cerveja. Eu normalmente negaria, ou inventaria qualquer desculpa meramente viável, mas a noite estava realmente quente e propícia; e de qualquer maneira eu não gostaria de interromper nossa conversa tão promissora.
O bar estava absurdamente cheio. Pensei que se talvez somasse todas as pessoas nos prédios da faculdade, não chegaria à soma das pessoas na fila para compra de cerveja, e das outras tantas sentadas nas mesas dali.
Ele falava sobre o passado, sobre ela, e achei lindo o modo como a descrevia, como a mencionava. Até cheguei a dizer que não imaginava que ninguém um dia falasse de mim daquele jeito, como ele falava dela. E foi então que citei: ‘’Tenho medo de ser a coadjuvante da minha história, ao invés de ser a protagonista’’. Ele deu de ombros e mal me ouviu, e então passamos a analisar as pessoas em frente a nós na fila.
Compramos uma garrafa grande e saímos rapidamente de lá. Ele notou quando um rapaz me fitou sem disfarçar, e debochou. Caminhamos até o lado do prédio que sempre costumávamos ficar. Logo que sentou no chão, acendeu seu cigarro e começou a filosofar.
Conversávamos sobre tudo o que seria viável conversar. Em alguns momentos, ele me dava breves e claras injeções de realidade.
Ele ousou até mesmo arriscar um palpite sobre mim: ‘’Te sinto meio triste de uns tempos pra cá. Sei lá, posso estar errado, mas mesmo quando você fala sobre algo alegre tem esse tom e esses olhos de melancolia’’.
Com alguns goles a mais na cerveja, aos poucos fui descarregando todo o peso que eu sentia sobre determinadas circunstâncias. Ele ouvia com atenção e continuava me aconselhando também.
‘’Já sentiu que você não é totalmente você por alguma razão?’’ foi uma pergunta retórica que ele acabou dirigindo a mim, e eu concordei. Mas também tentei justificar.
Ele concordava e discordava de mim em diferentes aspectos. Disse também, que além da garota de quem falava até então, eu era a única a quem ele não sabia persuadir.
Passei a expressar também meus sentimentos sobre o garoto com quem continuei envolvida mais tarde.
O calor permanecia, e com a nossa conversa produtiva eu fui perdendo qualquer noção de tempo. A rua passou a ser totalmente deserta.
Deitei no chão, apoiei as pernas na parede ao lado, e por um momento me senti livre de qualquer responsabilidade. Olhei pro céu, e apesar do clima quente e confortável, só vi uma estrela brilhando aquela noite.
Me vendo daquele jeito, ele se sentiu confortável o suficiente pra deitar na minha barriga, e passar assim a fitar o céu juntamente comigo. Colocou músicas do próprio celular pra tocar; músicas de nosso gosto em comum, e passamos a falar sobre séries de tv com ótimas trilhas sonoras e sobre bandas que eram nossas inspirações no passado.
Percebi que já era tarde, e tive que me despedir. Ele insistiu pra que fizemos aquilo outra vez, prometi que o faríamos; e fomos pra lados opostos.
Voltei pra casa ao som de Automatic Stop - do Strokes - aquela noite, tentando entender em que momento exatamente eu poderia prever que ele, o garoto inconsequente dos olhos de diamante, se tornaria meu leal confidente (ou algo que o valha).
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