THERE'S NOTHING YOU CAN MAKE THAT CAN'T BE MADE.

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sábado, 6 de junho de 2020

Está tudo dentro de você - Um conto sobre a sabedoria de Alessandra

Ela me olhava. O mesmo olhar terno que eu normalmente encontro na minha mãe.
Prestava atenção no que eu dizia e, como quem reconhecia em mim algo que eu mesma ainda não via, disse sorrindo:
- Você está diferente.
- Eu? Diferente? - O meu questionamento vinha com a mesma ingenuidade de aceitar que eu não compreendia o motivo dela dizer aquilo.
- É. Você está mais... mulher.

Continuei curiosa prestando atenção no modo como ela me analisava.
- Não é a mesma menina do ano passado. Você está lidando de forma diferente com esse problema. Você cresceu.

Ela continuava sorrindo e me fitando. Depois, desviava os olhos e continuava a secar a louça, ouvindo cada uma das confusões que eu pontuava. Cada palavra era um detalhe e ela não deixava passar nenhum deles.
Refletia a cada uma das tantas coisas que eu despejava ali. Olhava para o lado como quem pensa num tipo de plano que possa ajudar a amiga e depois, disparava alguma de suas frases que parecem estar sempre conectadas ao universo.

Ela me fazia explicar cada ponto de todas as decisões que eu tomara até ali. E todas as possíveis confusões que havia me metido.
Avaliávamos o caos e tentávamos juntas pensar na solução.

- Não é como da última vez. Você agora lida de um jeito mais maduro e por isso, precisa confiar que o universo vai se encarregar do que fazer, assim como eu confio.
- Preciso é deixar de ser medrosa - Pensei em voz alta - Mas é tão difícil. Eu estava indo a passos lentos mas permiti que ele ressignificasse uma porção de coisas.
- Quando é que você vai entender? Não foi ''ele'' quem ressignificou nada. Foi você. Está tudo dentro de você!

Ela trouxe à tona algo que eu já sabia, mas que ignorava.
Em seguida, abriu a janela de vidro da cozinha, apontou para a lua cheia que se apresentava para nós e disse:

- Peça! Pense no que você quer. E peça! O universo sempre vai te escutar, se for o desejo do seu coração.

Olhei para o céu. Eu já sabia o que pedir.



quinta-feira, 4 de junho de 2020

O que eu faria pelo meu eu do passado

Assisto atualmente a uma infinidade de filmes que falam sobre a possibilidade de viagens no tempo. De voltar e corrigir as falhas.
De ser capaz de se enxergar como antes e se dar conselhos que o seu ''eu'' de agora talvez escolhesse seguir.
Quase que diariamente o questionamento ''O que você diria ao seu eu de (insira uma idade aqui)?'' ganha textos em redes sociais e a reflexão, que para a maioria das pessoas é praticamente a mesma: Eu gostaria de ter - ou não ter - feito algo.
Me pego olhando pra trás hoje com a leveza e a calma de saber que é impossível exigir do meu eu do passado a compreensão que tenho agora. Mesmo que eu pudesse voltar no tempo, jamais poderia impedir-me de errar e de insistir no erro. Porque afinal, só a partir disso viria a resolução que existe hoje e traz uma percepção tão grandiosa sobre a vida.
No entanto, não posso dizer que não tenho curiosidade em me assistir da forma como eu fui um dia.
Algumas coisas talvez eu quisesse adiantar no tempo. Talvez quisesse acelerar o processo que algumas delas levou para ocorrer.
O meu eu de agora me olharia sorrindo, pensando: ''Você nem imagina tudo o que ainda vai te acontecer.''
Veria o meu eu do passado e mesmo sendo incapaz de se comunicar, enviaria qualquer vibração de consolo e amor.
Se o meu eu de agora pudesse voltar no tempo, inclusive, eu correria para um dos encontros no Urbe Café numa das travessas da rua augusta e perguntaria ao garoto sentado à minha frente o telefone de um de seus melhores amigos.
Ou, provavelmente, me espremeria na multidão de um dos meus últimos festivais, procurando um par de olhos puxados que eu na verdade só viria a encontrar no último dia do ano de 2019.
Teria dito incontáveis ''nãos'' e mais um bocado de ''sims''.
E tudo isso para, no final, eu ser capaz de confiar nas minhas escolhas - não em todas, mas naquelas que faço usando toda a sabedoria do meu coração.
Essa talvez seja a minha forma de aprender. De reconhecer que eu posso confiar em mim mesma, embora só eu saiba o que eu daria para ter antes as pessoas que tenho agora.
Talvez o universo queira de mim tudo o que eu gostaria que o meu eu do passado fizesse: Confiasse.
Se eu pudesse voltar atrás com a consciência que tenho hoje pra me encontrar comigo mesma meses atrás, eu diria: Confia.
E é essa a mesma voz que eu ouço no meu íntimo.

É o que eu escuto quando me conecto com o Todo. E ele é imenso.

terça-feira, 26 de maio de 2020

Aprendi a respeitar as minhas cicatrizes

Desde criança, sempre fui impaciente com as minhas cicatrizes.
Mesmo ainda muito pequena, era incapaz de fitar as cascas das feridas do joelho por muito tempo sem que tivesse uma necessidade quase desumana de arrancá-las.
E era o que eu sempre fazia.
Eu não via possibilidade de entender que a casca da ferida era um modo de permitir que cicatrizasse de vez.
Para que o meu corpo não carregasse marcas escuras das tais cicatrizes, eu as tirava de mim. Elas, por sua vez, sangravam. As vezes, até mais do que eu imaginava que sangrariam. O machucado, que deveria se manter ali por breves semanas, insistia em se fazer presente por meses. E quanto mais eu arrancava as tais casquinhas que tanto me incomodavam, por mais tempo elas permaneciam em mim.
Demorei para compreender que aqueles hematomas faziam parte de quem eu era. E estavam compondo quem eu me tornaria um dia, bem como as quedas que ocasionavam todos eles.
Tropecei mais algumas tantas vezes. Ralei mãos, braços, joelhos e cotovelos. Mesmo não quebrando nada, mesmo permanecendo inteira.
As tais cascas continuavam a aparecer. E eu finalmente compreendi e as assumi.
Num dado momento da minha vida. Eu passei a não tentar removê-las.

Eu finalmente aprendi a respeitar as minhas cicatrizes.
- Eu te agradeço por me enxergar como enxerga.
- Não precisa me agradecer. Você é quem você é desde antes de me conhecer.


domingo, 10 de maio de 2020

Os jeitos de uma das minhas mães

Minha tia tem uma infinidade de trejeitos. Alguns característicos até demais.
E outros que fui descobrir me fascinar agora que sou oficialmente uma mulher.
Minha tia tem jeitos. Um bocado deles.
O jeito como gosta de passar pano na casa de dois em dois dias e de como isso também faz sentido pra mim agora que também vou ter a minha casa.
O jeito como ela aprendeu, ainda com a sua avó, a deixar a pia totalmente limpa - tão limpa a ponto de se poder comer ali.
O jeito como ela se emociona falando da própria filha, e de como me emociona todas as vezes que me diz que gostaria de fazer mais por mim, mesmo que eu saiba que o que ela entende por tão pouco, pra mim vem representando muito mais.
O mesmo tempero para todas as comidas. E ainda assim, uma qualidade quase mágica de nunca nos fazer enjoar.
O mesmo cuidado ao lavar as roupas.
A mesma maneira branda de conversar. E a risada, que mudou.
Mudou com o tempo, mudou porque ela hoje se vê mais leve, mesmo na dificuldade de às vezes se manter sozinha e contar com a própria sorte. E o esforço de sempre.
Mudou porque agora eu participo de suas noites de cerveja em casa, porque agora eu a vejo cantarolando músicas aleatórias.
Porque agora eu a vejo gargalhar. E quando não vejo, escuto. E sempre é bom.
Tão bom que me faz feliz.
Tão bom que eu agradeço por ter a ela e a todos os seus jeitos de me criar como a filha que eu sempre vou sentir que me tornei.

sexta-feira, 17 de abril de 2020

A felicidade mora num telefonema

Eu liguei para falar da vida, pra não falar de nada e pra contar tudo o que eu mais gosto de dividir.
Liguei e ao telefone eu ouvia meu pai rindo das piadinhas que continua fazendo às custas da minha mãe. As piadas que, de um jeito sempre cômico, a tornam um pouco mais feliz.
Eu, como sempre, me diverti ouvindo a dificuldade dos dois em conciliar o telefone, mesmo com a ligação em viva voz, a necessidade de sempre de um falar mais que o outro e ainda assim, como o casal que tem sua linguagem própria, sendo capaz de rir e me falar de suas rotinas que agora eram ainda mais simples dentro de uma quarentena.
Minha mãe, em tom de entregar as atividades do meu pai, enfatizou em um dado momento os últimos acontecimentos.
- É, Ju. Você sabia que o seu pai andou cantando esses dias? Colocou as músicas do Djavan em karaokê e ficou cantando aqui na sala.
Já cheia de orgulho eu quis desenvolver o assunto.
Ele, cheio de si e contraditoriamente envergonhado, me explicou com o seu olhar técnico de músico que nunca perde a veia artística:
- É, mas na verdade eu estava procurando os arranjos originais das músicas. Esses arranjos de karaokê são muito ruins.

Explodindo de felicidade pelo que eu acabara de descobrir, eu mencionei ter a minha música preferida (do djavan), a que carrego nesse pódio já desde muito pequena.
Ele me perguntou qual era e eu respondi: Rei do mar.

Em seguida, me pediu que cantasse um trechinho.
Eu iniciei a minha canção preferida e ouvi ele do outro lado da linha cantando comigo. Logo, ouvi a voz da minha mãe ao fundo - ela cantava também. Quando dei por mim, nós três estávamos cantando e eu só queria guardar aquele momento com tudo de mim que ele representava.

''Vou me perder no azul verde do mar, junto da manhã em busca da vida..."

Ele finalizou me dizendo que eu realmente a sei cantar. Naquela voz eu senti orgulho e agora já reconheço qual é o próximo plano artístico para concretizar quando estivermos juntos outra vez, depois que tudo isso acabar.

Que me importa a brisa fria, o brilho dos faróis,
Que me importa o fundo, a calmaria, o temporal,
Eu sou o rei, eu sou o rei, eu sou a rei do mar...




segunda-feira, 6 de abril de 2020

Avenida 9 de Julho

Eu passo pela portaria imaginando que o porteiro - que nunca dá bom dia pra ninguém - saiba quem sou eu e para qual dos apartamentos eu vou.
De uma forma um tanto pretensiosa, eu imagino que não existam muitas garotas ruivas (de farmácia) com cabelo curto e roupas como as minhas, que frequentem aquele edifício.
Sempre o mesmo elevador. E eu nunca deixo de pensar que pareço estar num prédio corporativo já que é grande demais para um prédio residencial.
Eu sempre me olho no espelho que me encara. É o que me faz ter noção das minhas imperfeições e do tamanho das falhas que aparentemente só eu encontro no meu rosto. E eu sempre reclamo de notá-las. E ainda assim, sempre escuto que continuo linda - Nem sei mais se eu acredito.
Sempre que adentro aquele apartamento de sabe-lá-deus quantos infinitos m², eu lavo as mãos no banheiro que, se fosse meu, teria uma banheira gigante - Também já pensei nisso uma porção de vezes.
Passo pela área comum dos garotos (não existe área das meninas, visto que nenhuma mora lá).
As garotas que surgem ali são praticamente todas passageiras e têm lugares específicos onde gostam de ficar.
Reconheço um deles como o meu preferido e onde eu me inclino pra ver o prédio da frente - que é o que eu mais gosto.
É nele que eu digo que vou morar, num dos apartamentos de cima com luzes leves e alaranjadas, cheio de plantas na sacada.
As vezes fico um longo tempo só olhando o movimento da rua e a forma como a arquitetura e as estruturas dos edifícios vizinhos parecem conversar entre si. E comigo, como se soubessem que eu adoro só olhar.
E admirar.
E mesmo indo embora no dia seguinte eu nunca me despeço por completo.
Talvez porque eu sempre acredite que mais tarde eu vou voltar.