THERE'S NOTHING YOU CAN MAKE THAT CAN'T BE MADE.

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segunda-feira, 26 de outubro de 2020

O sinônimo de amor é não desistir

- Eu não queria outra mulher, ela era quem eu queria e eu tinha certeza disso. Mesmo quando estava doente, eu não queria e não podia largá-la. Ela era a mãe dos meus filhos.

Após ouvir essas palavras vindas do meu pai, Kim apertou minha mão com firmeza e olhou nos meus olhos como quem diz ''eu faria o mesmo por você''.

Meu pai se orgulhava de mencionar sempre essa história. E eu passei a minha vida fixada à ideia de que comigo não podia ser diferente. Era um modo de entender que o sinônimo de amor é não desistir. Que antes de se tornar leve, o amor exige esforço, exige reconhecimento e exige, também, coragem.

Foi esse o amor que eu sempre recebi em casa, mesmo no auge da minha imaturidade adolescente, mesmo quando eu acreditava não ser compreendida, por estar ocupada demais tentando me achar em mim mesma e agindo com uma certa empáfia.
Mas mesmo depois de um desentendimento, bastava um simples ''você sabe que eu te amo'' e a intenção de melhorar as coisas, para que eu fosse perdoada e nunca deixasse de me sentir aceita.
Foram os muitos relacionamentos - ou bons e os que exigiram de mim uma força psicológica maior do que eu possuía na época - que me trouxeram o entendimento do que eu desejava ter na vida.

Que mais do que uma história bonita, eu queria uma história real. Eu queria ser amada pelo que eu era. 

E, de uma forma muito peculiar e nada comum - bem digna do tipo de pessoa que eu acredito ser - eu consegui isso.
De um jeito maluco, no meio de tudo o que eu estava buscando dentro de mim, eu me achei e achei a certeza que eu via na história que construiu a minha família.

sexta-feira, 21 de agosto de 2020

Ciranda de três

Eu era meio. E me tornei inteira.
Eramos inteiros. E depois nos tornamos um, mesmo sendo três.
E demos as mãos.
E cada um puxava o outro, quase como uma ciranda.
O que Paulo sente, eu sinto em dobro. O que Murillo sente, eu sinto por completo.
O que eu sinto, é perceptível à todos os dois. E assim caminhamos.
Sou eu. Que me torno dois. Que me faço em três.
Que termino num infinito perfeito e completo.
Três, que são dois e são um, mesmo sendo três outra vez. E novamente a ciranda que se encarrega do resto. 
Que nos faz girar.
E nós giramos juntos, até quando somos opostos.



segunda-feira, 27 de julho de 2020

Independência emocional

Você não acorda um dia proclamando a independência de si mesmo.
Não olha para o espelho e diz: ''À partir de agora eu sou livre.''
Por mais utópica ou romantizada que seja a ideia de liberdade, o primeiro grande passo é sempre aceitar que isso não acontece do dia pra noite.
Assim como totalmente improvável na historia do nosso país, a independência não vem só de um grito, de um momento de fúria.
O estopim sim. Esse vem do último suspiro, do despertar para o que deve ser mudado.
O restante vem somente com a maneira como você trabalha seus próprios pensamentos e reavalia todos os pesos das decisões que o trouxeram até aqui, e das infinitas repetições que se seguem até que você reconheça as falhas intrínsecas na sua personalidade.
Com esses vastos anos de experiência no âmbito emocional, eu hoje reconheço que a independência exige coragem de olhar pra si mesmo. Exige assumir as hipocrisias internas existentes e presentes desde os sentimentos mais simples ainda adquiridos na infância.
Abandonar a ideia de precisar efetivamente de alguém que seja o seu escudo, a sua muleta e assumir a posição de ''dono de si mesmo'' parece de longe algo a se aspirar, e nos dias atuais existem até mesmo tutoriais de como tornar essa prática mais aceitável ao nosso cérebro programado. Mas o maior dos desafios está nos dias em que o seu único e maior desejo é ter/ser de alguém e em reconhecer a linha tênue entre viver um amor ou atribuí-lo a qualquer outro tipo de dependência física e emocional.

quinta-feira, 25 de junho de 2020

O próximo salto

Quando me perguntaram se eu tinha absoluta certeza do que eu estava fazendo naquele momento, a minha resposta foi não.
Pela primeira vez eu não queria cultivar certeza alguma. A certeza era a possibilidade de me decepcionar se eu acreditasse naquilo e fosse enganada pelas minhas próprias noções. Ou se, no meio do caminho, um de nós dois simplesmente mudasse completamente de ideia.
Não ter certeza significava que pela primeira vez, eu estaria entregue ao momento presente, sem tantos pesos, sem tantas expectativas, sem sofrer compulsivamente por não ter realizado algum sonho que desenvolveria naquele meio tempo.
Era como subir as pedras da última cachoeira onde estive, olhar para a água, reconhecer a altura de onde eu me via e pular de uma vez, sem pensar demais.
Foi o que eu fiz no dia 30 de dezembro de 2019, quando um dos meus amigos do litoral me sugeriu pular abruptamente na água gelada da nascente.
Minha coragem ofuscou o meu medo de altura e todo o receio que eu tinha de não conseguir voltar à superfície depois do mergulho se foi quando eu me vi capaz de me encarar, de encarar o que eu queria.
Aceitar o convite de ir até um lugar que eu não conhecia, apenas pela graça de viver algo diferente, foi uma forma breve do universo me contar que coisas como aquela aconteceriam em grande escala no ano seguinte.
No dia 30 de dezembro de 2019 eu pulei da montanha de pedras em direção à água.
No dia 31 de dezembro de 2019, eu comecei a subir uma outra montanha sem ter a menor ideia de que um dia, talvez, eu também quisesse pular.

sábado, 6 de junho de 2020

Está tudo dentro de você - Um conto sobre a sabedoria de Alessandra

Ela me olhava. O mesmo olhar terno que eu normalmente encontro na minha mãe.
Prestava atenção no que eu dizia e, como quem reconhecia em mim algo que eu mesma ainda não via, disse sorrindo:
- Você está diferente.
- Eu? Diferente? - O meu questionamento vinha com a mesma ingenuidade de aceitar que eu não compreendia o motivo dela dizer aquilo.
- É. Você está mais... mulher.

Continuei curiosa prestando atenção no modo como ela me analisava.
- Não é a mesma menina do ano passado. Você está lidando de forma diferente com esse problema. Você cresceu.

Ela continuava sorrindo e me fitando. Depois, desviava os olhos e continuava a secar a louça, ouvindo cada uma das confusões que eu pontuava. Cada palavra era um detalhe e ela não deixava passar nenhum deles.
Refletia a cada uma das tantas coisas que eu despejava ali. Olhava para o lado como quem pensa num tipo de plano que possa ajudar a amiga e depois, disparava alguma de suas frases que parecem estar sempre conectadas ao universo.

Ela me fazia explicar cada ponto de todas as decisões que eu tomara até ali. E todas as possíveis confusões que havia me metido.
Avaliávamos o caos e tentávamos juntas pensar na solução.

- Não é como da última vez. Você agora lida de um jeito mais maduro e por isso, precisa confiar que o universo vai se encarregar do que fazer, assim como eu confio.
- Preciso é deixar de ser medrosa - Pensei em voz alta - Mas é tão difícil. Eu estava indo a passos lentos mas permiti que ele ressignificasse uma porção de coisas.
- Quando é que você vai entender? Não foi ''ele'' quem ressignificou nada. Foi você. Está tudo dentro de você!

Ela trouxe à tona algo que eu já sabia, mas que ignorava.
Em seguida, abriu a janela de vidro da cozinha, apontou para a lua cheia que se apresentava para nós e disse:

- Peça! Pense no que você quer. E peça! O universo sempre vai te escutar, se for o desejo do seu coração.

Olhei para o céu. Eu já sabia o que pedir.



quinta-feira, 4 de junho de 2020

O que eu faria pelo meu eu do passado

Assisto atualmente a uma infinidade de filmes que falam sobre a possibilidade de viagens no tempo. De voltar e corrigir as falhas.
De ser capaz de se enxergar como antes e se dar conselhos que o seu ''eu'' de agora talvez escolhesse seguir.
Quase que diariamente o questionamento ''O que você diria ao seu eu de (insira uma idade aqui)?'' ganha textos em redes sociais e a reflexão, que para a maioria das pessoas é praticamente a mesma: Eu gostaria de ter - ou não ter - feito algo.
Me pego olhando pra trás hoje com a leveza e a calma de saber que é impossível exigir do meu eu do passado a compreensão que tenho agora. Mesmo que eu pudesse voltar no tempo, jamais poderia impedir-me de errar e de insistir no erro. Porque afinal, só a partir disso viria a resolução que existe hoje e traz uma percepção tão grandiosa sobre a vida.
No entanto, não posso dizer que não tenho curiosidade em me assistir da forma como eu fui um dia.
Algumas coisas talvez eu quisesse adiantar no tempo. Talvez quisesse acelerar o processo que algumas delas levou para ocorrer.
O meu eu de agora me olharia sorrindo, pensando: ''Você nem imagina tudo o que ainda vai te acontecer.''
Veria o meu eu do passado e mesmo sendo incapaz de se comunicar, enviaria qualquer vibração de consolo e amor.
Se o meu eu de agora pudesse voltar no tempo, inclusive, eu correria para um dos encontros no Urbe Café numa das travessas da rua augusta e perguntaria ao garoto sentado à minha frente o telefone de um de seus melhores amigos.
Ou, provavelmente, me espremeria na multidão de um dos meus últimos festivais, procurando um par de olhos puxados que eu na verdade só viria a encontrar no último dia do ano de 2019.
Teria dito incontáveis ''nãos'' e mais um bocado de ''sims''.
E tudo isso para, no final, eu ser capaz de confiar nas minhas escolhas - não em todas, mas naquelas que faço usando toda a sabedoria do meu coração.
Essa talvez seja a minha forma de aprender. De reconhecer que eu posso confiar em mim mesma, embora só eu saiba o que eu daria para ter antes as pessoas que tenho agora.
Talvez o universo queira de mim tudo o que eu gostaria que o meu eu do passado fizesse: Confiasse.
Se eu pudesse voltar atrás com a consciência que tenho hoje pra me encontrar comigo mesma meses atrás, eu diria: Confia.
E é essa a mesma voz que eu ouço no meu íntimo.

É o que eu escuto quando me conecto com o Todo. E ele é imenso.

terça-feira, 26 de maio de 2020

Aprendi a respeitar as minhas cicatrizes

Desde criança, sempre fui impaciente com as minhas cicatrizes.
Mesmo ainda muito pequena, era incapaz de fitar as cascas das feridas do joelho por muito tempo sem que tivesse uma necessidade quase desumana de arrancá-las.
E era o que eu sempre fazia.
Eu não via possibilidade de entender que a casca da ferida era um modo de permitir que cicatrizasse de vez.
Para que o meu corpo não carregasse marcas escuras das tais cicatrizes, eu as tirava de mim. Elas, por sua vez, sangravam. As vezes, até mais do que eu imaginava que sangrariam. O machucado, que deveria se manter ali por breves semanas, insistia em se fazer presente por meses. E quanto mais eu arrancava as tais casquinhas que tanto me incomodavam, por mais tempo elas permaneciam em mim.
Demorei para compreender que aqueles hematomas faziam parte de quem eu era. E estavam compondo quem eu me tornaria um dia, bem como as quedas que ocasionavam todos eles.
Tropecei mais algumas tantas vezes. Ralei mãos, braços, joelhos e cotovelos. Mesmo não quebrando nada, mesmo permanecendo inteira.
As tais cascas continuavam a aparecer. E eu finalmente compreendi e as assumi.
Num dado momento da minha vida. Eu passei a não tentar removê-las.

Eu finalmente aprendi a respeitar as minhas cicatrizes.