THERE'S NOTHING YOU CAN MAKE THAT CAN'T BE MADE.

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sábado, 5 de novembro de 2016

Estresse à dois

Eu já me sentia profundamente irritada. O trânsito terrível que me perseguiu, o transporte público com lotação máxima, os seus 12 intermináveis minutos de atraso.
Mesmo que eu caminhasse e conversasse com você, sabia que aquele não era um dia bom pra mim, como naquela frase em que ouvi muitas vezes, de que há dias em que ''nem deveríamos ter saído da cama". Suas brincadeiras me irritavam. Sua paciência em lidar com qualquer circunstâncias me incomodava - talvez pela minha tremenda inveja de te ver resolver problemas sem nenhum desespero emocional.
E foi ali que tudo começou. A minha sequência de queixas, de frustrações diárias, sendo cuspidas por mim ao final do que deveria ser uma linda e deliciosa tarde de sábado. Questionei tudo o que era passível de questionamento e seguimos novamente para a minha casa.
As poucas palavras durante o trajeto foram só mais uma forma de despejar mais uma porção de queixas e críticas, e finalmente chegamos.
Subi as escadas nervosa. Tirei meus sapatos, troquei a calça preta pela bermuda do pijama e deitei próxima do espaço que me sobrou, logo depois de você também se deitar.
Voltamos às nossas queixas. Eu me perdi numa frase e no auge do que deveria ser uma discussão séria, você me veio com uma piadinha cretina - mas extremamente engraçada.
Olhamos um para o outro e de repente começamos a rir feito um belo par de idiotas.
Em questão de segundos, você me tomou pelo braço e disse algo como: ''não vamos brigar, vai... vem cá que eu quero te dar um beijo". E eu beijei.

Simples assim. Como se todos os conflitos do mundo pudessem ser sanados por um lábio carnudo, um beijo molhado, por um abraço acolhedor ou uma piada propícia.
Como se todas as guerras pudessem ser cessadas com um sorriso largo e aberto.


quinta-feira, 6 de outubro de 2016

Farol vermelho - Fragmentos Perdidos

Parei em frente a lanchonete onde ela trabalhara até mais tarde. O plano inicial era uma cerveja à dois, afinal, estávamos sem nos ver havia pouco mais de duas semanas - e mesmo insistindo muito a pedido dela, eu continuava detestando a comunicação virtual que nos obrigava a fingir interação diária.
Ela se atrasou, mas justificou com a gentileza de sempre, parecendo grata por eu estar ali honrando o compromisso combinado.
Abriu a porta do carro e olhou atônita para as luzes do som que trazia uma altura considerável, no qual tocava músicas ''estranhas'' das quais ela nunca gostou. Eu tive certeza de que ela reclamaria da escolha daquela trilha sonora, e antes que pudesse fazê-lo, comecei a apertar o botão de sequência para encontrar algo que ela gostasse de ouvir.
Deixei em uma das minhas preferidas. Sabia que se ela não conhecesse, ao menos passaria a apreciar após alguns segundos. 
Mas, ela já havia escutado antes. E isso ficou bastante óbvio pra mim em seguida.
Paramos em um dos faróis que a avenida da lanchonete trazia e pouco antes de engatar a marcha novamente, percebi que ela escondia o rosto, virando-o para a janela, deixando que os cabelos soltos caíssem sob seus olhos e ombros. Ela deixara escorrer lágrimas tristes ao som daquela música e eu rapidamente compreendi isso muito bem. Me inclinei indicando que trocaria de canção e ela logo me advertiu para que eu não o fizesse.
Olhei-a sem conseguir responder. Não queria invadi-la perguntando a razão de tamanha tristeza. 
Ela começou a enxugar as lágrimas com as costas das mãos, que agora ficavam molhadas e escuras, cheias de resíduos da sua maquiagem.
Seguiu calada e num dado momento me olhou com ternura. Em seguida sorriu, parecendo aliviada como se quisesse me agradecer por eu estar ali, mesmo sem dizer uma palavra sequer.
Se justificou me dizendo que jamais ouviria a música Simple Man de Lynyrd Skynyrd sem sentir o peso da saudade no peito.

Ainda estávamos no outono. Era 9 de junho.

domingo, 18 de setembro de 2016

É tudo sobre o seu par de pequenos e instintivos olhos castanhos

Esperança. E tudo dela dentro dos seus pequenos e instintivos olhos castanhos.
Tudo de mim. Um tanto a mais de você.
E um vazio que se preenche sozinho, com um breve sorriso seu.
Você, que se diz tão distante do que é humano, talvez porque o humano não é necessariamente bom.
Talvez porque, pra mim, você continue sendo a esperança que as vezes falta mundo afora. Porque é só em você que eu enxergo tamanha nobreza.
Porque é no seu colo que eu quero mergulhar. E me afogar.
Essa cor nada peculiar dos seus olhos me faz ter fé na vida. Me faz te encontrar sempre que começo a fitar demais o espelho.
É em você - no seu eu já tão meu - ou nesse seu par de pequenos e instintivos olhos castanhos, que eu sou minha e sua de uma só vez.

No final, é tudo sobre você. E continuará sendo.
É tudo sobre a minha intensa e exclusivamente real história de amor, esperança e fé.
Sobre todos os sentimentos mais nobres que já tive, graças ao seu par de pequenos e instintivos olhos castanhos.


terça-feira, 6 de setembro de 2016

A primeira vez que ela se afogou

A neblina escurecia a paisagem, que por si já era bastante densa.
O mar não tinha a mesma cor clara e azul de outrora. Embora parecesse a mesma de tempos remotos, a praia agora trazia à tona um mar escuro e esverdeado.
Suzi viu aquela figura familiar entrando na água, que não trazia nem sequer uma pequena onda.
Chamou-o pelo nome, mas ele não se virou para respondê-la, nem mesmo com um breve olhar.
Continuava a caminhar em direção ao fundo, se distanciando cada vez mais da praia - que de bonita agora não tinha quase nada.
Ele seguia de forma constante, como se dali surgisse todo o tempo do mundo - ou, daquele mundo.
Ela continuou chamando-o e finalmente decidiu segui-lo mar adentro.
Ele apenas ignorava sua presença. Fingia não escutá-la enquanto ela gritava seu nome a plenos pulmões.
Finalmente, perdeu o apoio da areia nos pés, já não alcançava o chão sem que pra isso ficasse totalmente submersa.
E tudo finalmente escureceu.
Sentia a água salgada invadindo seu corpo, entrando por seus ouvidos e seu nariz. E resignada, ela compreendeu que tudo ali escureceria por completo.

Num súbito sopro, ela despertou.
Se via completamente deitada na areia fria, com o corpo dele inclinado em sua direção - lhe parecia que ele acabara de lhe fazer uma ressuscitação depois de vê-la afogar-se.
Ela lhe olhou furtivamente nos olhos, esperando que ele lhe dissesse uma palavra qualquer, mas de sua boca nada saiu. Os olhos dele, aqueles olhos castanhos em quase toda sua totalidade - mas esverdeados em volta - carregavam apatia. Não traziam qualquer expressão.
E apesar disso - como em outros momentos agora já tão distantes - pareciam lhe despir a alma.

Finalmente, Suzi acordou.
Estava segura nos travesseiros macios de sua cama.

sexta-feira, 19 de agosto de 2016

A gente insiste

A gente insiste.
Insiste na blusa desbotada que ganhou aos 17 anos. Insiste na calça 36 que já não entra mais - que, na verdade, empaca nas coxas.
Insiste em guardar notas fiscais de supermercado. Insiste em arquivar fotografias feias que nunca teremos coragem de publicar.
Insiste em manter na playlist músicas que já não são ouvidas há meses.
A gente insiste. E como insiste!
Insiste em quem machuca. Investe tempo pra se recuperar. Só pra poder se machucar outra vez.
E ainda assim: Insistir.
A gente insiste naquela amizade hipócrita que adora tecer comentários maldosos pelas nossas costas.
Insiste em fingir não saber.
Insiste naquela relação abusiva e mal resolvida. Insiste em crer que tudo logo pode melhorar.
Insiste que as pessoas podem mudar.
A gente insiste em usar uma cor que não nos cai bem. Insiste em forjar um sorriso quando a vontade é chorar.
Insiste num curso que não quer mais frequentar.
A gente insiste na humilhação. Na dor. No peso. E quase sempre falta força para apenas abandonar e seguir. A gente insiste no mesmo assunto. Nas mesmas regras. Nas mesmas ideias.
Insiste num plano que já deu errado uma vez. Duas. Três.
Insiste nas lembranças que teimamos em não deixar pra trás.
Insiste e se apega a cada mísera tentativa.

A gente simplesmente aprende a insistir. Confundimos a incessante insistência com coragem, negando a nós mesmos o direito de sermos honestos com os outros e, em especial, conosco.
A gente desiste e se confronta depois com a recusa dessa desistência. Porque no final a gente insiste.

A gente sempre insiste.


segunda-feira, 15 de agosto de 2016

Os resumos diários das ligações noturnas

Você sabe que eu vou chegar em casa e contar detalhadamente sobre cada precioso minuto do meu dia.
Vou te falar sobre algum amigo com quem almocei, sobre alguma música que aprendi a tocar, sobre alguém de quem me lembrei.
Vou falar compulsivamente sobre as minhas percepções. Sobre a garota da agência bancária que insiste em demonstrar certa antipatia por mim, mesmo que eu não dê motivos pra isso.
Vou falar sobre a infecção no ouvido de um dos meus bichos de estimação. Vou comentar sobre o elogio que a balconista da padaria fez à minha maquiagem, ou sobre a frustração que um comentário malicioso e mal colocado provocou em mim.
Vou te contar sobre a cor de esmalte escolhida para o resto da semana. Vou mencionar a procrastinação do livro que eu ainda não tive coragem de finalizar.
Vou reclamar a sua falta. Te pedir pra voltar, pra me buscar, pra dormir no seu abraço.
Vou imitar uma criança, te chamando por apelidos que não ousamos dividir com o restante do mundo.

E você, mesmo enfadado, vai rir. Vai resumir o seu dia agitado e ouvir bem mais sobre o meu.
Vai assumir o quão vazio o outro lado da cama fica sem mim. Vai se deleitar com um leve ''eu te amo'' seguido de um ''boa noite'' ou um ''tenho pensado muito em você''.
Vai me responder com a mesma intensidade, e com o cuidado de quem sabe tanto sobre mim.

segunda-feira, 1 de agosto de 2016

Sinal de fogo - Um conto sobre Bernardo

Bernardo sorriu no momento em pôs os olhos em Rafaela.

Ela lhe parecia encantadoramente perdida. Trazia consigo um brilho diferente de todo o resto.
Até as roupas que vestia lhe davam um toque peculiar, muito diferente de toda aquela maioria em meio ao bar cheio de luzes neon.
Ela lhe sorriu. E o coração de Bernardo saltou. Como se aquele pedido de "anexaxão à primeira vista" fosse um reconhecimento. Como se aquele sorriso, tão puramente ingênuo e leve, lhe chamasse da forma mais convidativa possível.

Sentou-se ao lado dela. Lhe fez perguntas breves, perguntas estas que demonstravam total interesse em sua vida. E em mais de meia hora dividiam a mesma cerveja.
Ela, que já lhe parecia ligeiramente alterada pelas bebidas que tomara, agora o olhava de forma instintiva.
Lhe contara sobre o fim recente de um grande amor e, sentindo as mãos de Bernardo em seu rosto, virou-se para não permitir o que viria a ser o primeiro beijo.
Desculpou-se, meio sem jeito. Bernardo riu, fingindo parecer ofendido. O sorriso dela o fascinava e o intrigava. Como poderia ter se apaixonado tão rápido por alguém que acabara de conhecer? Alguém que, de fato, não estava em seus planos.
No ambiente do bar, a música "Signal Fire" de Snow Patrol embalava toda a conversa dos dois. E era exatamente o que lhe parecia. Ela lhe parecia um sinal. Um lindo e extasiante sinal de fogo.
De um fogo que viria a consumir seu peito e lhe inquietar o sono.

Bernardo chegara ao bar na intenção de conquistar de vez uma antiga paixão mal resolvida, e Rafaela surgira parecendo mudar toda a sua convicção inicial.
Já ao fim da noite, ela se dirigiu a pia do banheiro do bar. Lavou as mãos, molhou bem os pulsos e a nuca. Olhei-se no espelho e perguntou-se: O que há de tão lindo no sorriso desse rapaz, afinal?
Não compreendia o por quê de estar há horas tão vidrada naquele par de olhos azuis esverdeados. Confundia-se e Bernardo certamente notara essa confusão.
Ele era doce. E essa era a doçura que ela sentia faltar em sua vida. Ou, ao menos sentia ter pedido meses antes.
Foi caminhando em direção a ele. E sorriu.
Bernardo perguntou-lhe se ela se sentia bem. Ela afirmou que sim. De um jeito meigo, olhou-o nos olhos.

- Soube que hoje é a sua comemoração de aniversário. Desculpe ser uma penetra na sua festa.
- Você não é uma penetra. É minha convidada.

Bernardo abaixou-se - por ser consideravelmente mais alto que Rafaela -  e sutilmente lhe beijou. Ela correspondeu de forma intensa. Houve a primeira conexão.
E nos próximos meses, Rafaela se tornaria a salvação e a perdição de Bernardo.
Ambos se tornariam parte importante da vida um do outro. Mas, naquele momento, não faziam ideia do que se seguiria.

Naquele momento, ela era apenas o seu mais bonito sinal de fogo.