THERE'S NOTHING YOU CAN MAKE THAT CAN'T BE MADE.

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segunda-feira, 7 de dezembro de 2020

É de felicidade

Ele me puxou pela mão, me perguntou se faríamos dar certo.

Me olhou com uma convicção invejável e eu, que já não queria esconder mais o que eu sentia, comecei a disparar tudo o que eu pensava.

- Você não sabe o quão pavoroso é saber que somos duas pessoas assim tão diferentes e que, mesmo essa sendo a nossa realidade, eu não consiga lidar com o fato de ser louca por você, de ficar assim um pouco mais a cada dia, e, de me perguntar o que vai ser de mim se tudo der errado.

Ele sorriu. Um dos sorrisos mais bonitos que já vi naquele rosto, que normalmente costumava ser tão sério.

Sorriu e me olhou com a ternura de quem queria me abraçar e me pegar no colo, como uma criança que acabara de fazer qualquer descoberta fascinante.

- Por que você tá rindo?

Ele sorriu de novo antes de me responder.

- Achei lindo o que você disse.

Em seguida, vi uma lágrima escorrer por seu rosto. Me desarmei completamente e apoiei uma das minhas mãos para enxugá-la.

- Não chora - Eu pedi.

Ele segurou minha mão e disparou ainda com um meio sorriso:

- É de felicidade.



terça-feira, 17 de novembro de 2020

Todos os ''quase'' que fazem de mim o que eu sou

Eu passei boa parte da minha vida acreditando ser desprovida de muitas habilidades.
Na 5ª série, fui uma das poucas meninas da minha sala que conseguiu ultrapassar todos os limites de nota baixa adquirindo um absurdo ''E'' numa prova de matemática, que conseguia ser ainda pior que o ''D'' - que de longe já era a nota mais vergonhosa que se poderia tirar.
Eu nunca fui a primeira em nada e levei um certo tempo para querer me tornar alguma coisa.
A única noção básica que sempre tive foi a de que eu queria ser feliz. E aceita. E esses dois desejos em conjunto às vezes pareciam impossíveis.
Eu desenhava bem, essa sempre foi uma qualidade. Mas o fazia por hobby. Porque era o meu jeito de expressar minhas emoções, ou de inventar uma roupa que eu adoraria vestir e que se desenvolvia apenas na minha cabeça. As vezes, criava estórias em quadradinhos inspiradas em personagens que eu adoraria ter coragem de ser.
Eu atuava bem, tinha um certo talento para artes cênicas e ainda assim custei a ingressar no teatro.
Inventava enredos de novelas e viver isso como realidade me parecia tão distante que eu guardava os melhores detalhes somente pra mim.
Eu não era a mais bonita e certamente me alivia a ideia de não ter sobrado qualquer foto da minha adolescência para reafirmar esse fato.
Aprendi violão com a minha mãe, mas não o suficiente para me tornar uma musicista. Não o suficiente para ser como ela.
Eu era eu. A garota que sabia um pouco de tudo e não se aprofundava em nada. A aluna nota ''B''. Porque buscar um ''A'' exigia demais de mim e eu sequer tinha concentração para tentar.
Eu era um pouco de tudo. A garota que sabia cantar, mas não o bastante para tentar carreira com isso. A garota que aprendeu a cozinhar o básico porque não tinha paciência para lidar com o fogão.
Só depois de muito tempo olhando pra quem eu era, percebi que saber um pouco de tudo me levou a entender que eu queria saber mais. E eu não poderia sem o mínimo entendimento. Se eu não soubesse todas as coisas que eu já sabia.
Ter certa aptidão para artes me transformou em um projeto de escritora e roteirista, e esse se tornou o meu grande sonho. Saber desenhar me levou para o campo da criação e do desenvolvimento de artes publicitárias, que não são as melhores que já vi, mas que estão cada dia mais bonitas, ganhando sempre um toque da minha personalidade.
Não tirei mais nenhuma nota vermelha em matemática porque nunca mais precisei entender equação de 2º grau - e sinceramente nunca a utilizei pra nada.
Não sou musicista, mas sou boa em tocar todas as minhas músicas preferidas.
Aprendi a ser eu com todas as minhas melhores ferramentas. E a não me menosprezar por isso. Ser eu sempre foi a meta e até onde eu posso ver, de uma forma muito particular estou sempre trazendo isso à tona.
Toda a sensibilidade que se pode esperar de uma ''pseudo-artista'' me trouxe compreensões que nem sempre são visíveis aos olhos dos outros. E eu me tornei quem eu sou.

Um pouco melhor que antes. Todos os dias.


segunda-feira, 26 de outubro de 2020

O sinônimo de amor é não desistir

- Eu não queria outra mulher, ela era quem eu queria e eu tinha certeza disso. Mesmo quando estava doente, eu não queria e não podia largá-la. Ela era a mãe dos meus filhos.

Após ouvir essas palavras vindas do meu pai, Kim apertou minha mão com firmeza e olhou nos meus olhos como quem diz ''eu faria o mesmo por você''.

Meu pai se orgulhava de mencionar sempre essa história. E eu passei a minha vida fixada à ideia de que comigo não podia ser diferente. Era um modo de entender que o sinônimo de amor é não desistir. Que antes de se tornar leve, o amor exige esforço, exige reconhecimento e exige, também, coragem.

Foi esse o amor que eu sempre recebi em casa, mesmo no auge da minha imaturidade adolescente, mesmo quando eu acreditava não ser compreendida, por estar ocupada demais tentando me achar em mim mesma e agindo com uma certa empáfia.
Mas mesmo depois de um desentendimento, bastava um simples ''você sabe que eu te amo'' e a intenção de melhorar as coisas, para que eu fosse perdoada e nunca deixasse de me sentir aceita.
Foram os muitos relacionamentos - ou bons e os que exigiram de mim uma força psicológica maior do que eu possuía na época - que me trouxeram o entendimento do que eu desejava ter na vida.

Que mais do que uma história bonita, eu queria uma história real. Eu queria ser amada pelo que eu era. 

E, de uma forma muito peculiar e nada comum - bem digna do tipo de pessoa que eu acredito ser - eu consegui isso.
De um jeito maluco, no meio de tudo o que eu estava buscando dentro de mim, eu me achei e achei a certeza que eu via na história que construiu a minha família.

sexta-feira, 21 de agosto de 2020

Ciranda de três

Eu era meio. E me tornei inteira.
Eramos inteiros. E depois nos tornamos um, mesmo sendo três.
E demos as mãos.
E cada um puxava o outro, quase como uma ciranda.
O que Paulo sente, eu sinto em dobro. O que Murillo sente, eu sinto por completo.
O que eu sinto, é perceptível à todos os dois. E assim caminhamos.
Sou eu. Que me torno dois. Que me faço em três.
Que termino num infinito perfeito e completo.
Três, que são dois e são um, mesmo sendo três outra vez. E novamente a ciranda que se encarrega do resto. 
Que nos faz girar.
E nós giramos juntos, até quando somos opostos.



segunda-feira, 27 de julho de 2020

Independência emocional

Você não acorda um dia proclamando a independência de si mesmo.
Não olha para o espelho e diz: ''À partir de agora eu sou livre.''
Por mais utópica ou romantizada que seja a ideia de liberdade, o primeiro grande passo é sempre aceitar que isso não acontece do dia pra noite.
Assim como totalmente improvável na historia do nosso país, a independência não vem só de um grito, de um momento de fúria.
O estopim sim. Esse vem do último suspiro, do despertar para o que deve ser mudado.
O restante vem somente com a maneira como você trabalha seus próprios pensamentos e reavalia todos os pesos das decisões que o trouxeram até aqui, e das infinitas repetições que se seguem até que você reconheça as falhas intrínsecas na sua personalidade.
Com esses vastos anos de experiência no âmbito emocional, eu hoje reconheço que a independência exige coragem de olhar pra si mesmo. Exige assumir as hipocrisias internas existentes e presentes desde os sentimentos mais simples ainda adquiridos na infância.
Abandonar a ideia de precisar efetivamente de alguém que seja o seu escudo, a sua muleta e assumir a posição de ''dono de si mesmo'' parece de longe algo a se aspirar, e nos dias atuais existem até mesmo tutoriais de como tornar essa prática mais aceitável ao nosso cérebro programado. Mas o maior dos desafios está nos dias em que o seu único e maior desejo é ter/ser de alguém e em reconhecer a linha tênue entre viver um amor ou atribuí-lo a qualquer outro tipo de dependência física e emocional.

quinta-feira, 25 de junho de 2020

O próximo salto

Quando me perguntaram se eu tinha absoluta certeza do que eu estava fazendo naquele momento, a minha resposta foi não.
Pela primeira vez eu não queria cultivar certeza alguma. A certeza era a possibilidade de me decepcionar se eu acreditasse naquilo e fosse enganada pelas minhas próprias noções. Ou se, no meio do caminho, um de nós dois simplesmente mudasse completamente de ideia.
Não ter certeza significava que pela primeira vez, eu estaria entregue ao momento presente, sem tantos pesos, sem tantas expectativas, sem sofrer compulsivamente por não ter realizado algum sonho que desenvolveria naquele meio tempo.
Era como subir as pedras da última cachoeira onde estive, olhar para a água, reconhecer a altura de onde eu me via e pular de uma vez, sem pensar demais.
Foi o que eu fiz no dia 30 de dezembro de 2019, quando um dos meus amigos do litoral me sugeriu pular abruptamente na água gelada da nascente.
Minha coragem ofuscou o meu medo de altura e todo o receio que eu tinha de não conseguir voltar à superfície depois do mergulho se foi quando eu me vi capaz de me encarar, de encarar o que eu queria.
Aceitar o convite de ir até um lugar que eu não conhecia, apenas pela graça de viver algo diferente, foi uma forma breve do universo me contar que coisas como aquela aconteceriam em grande escala no ano seguinte.
No dia 30 de dezembro de 2019 eu pulei da montanha de pedras em direção à água.
No dia 31 de dezembro de 2019, eu comecei a subir uma outra montanha sem ter a menor ideia de que um dia, talvez, eu também quisesse pular.

sábado, 6 de junho de 2020

Está tudo dentro de você - Um conto sobre a sabedoria de Alessandra

Ela me olhava. O mesmo olhar terno que eu normalmente encontro na minha mãe.
Prestava atenção no que eu dizia e, como quem reconhecia em mim algo que eu mesma ainda não via, disse sorrindo:
- Você está diferente.
- Eu? Diferente? - O meu questionamento vinha com a mesma ingenuidade de aceitar que eu não compreendia o motivo dela dizer aquilo.
- É. Você está mais... mulher.

Continuei curiosa prestando atenção no modo como ela me analisava.
- Não é a mesma menina do ano passado. Você está lidando de forma diferente com esse problema. Você cresceu.

Ela continuava sorrindo e me fitando. Depois, desviava os olhos e continuava a secar a louça, ouvindo cada uma das confusões que eu pontuava. Cada palavra era um detalhe e ela não deixava passar nenhum deles.
Refletia a cada uma das tantas coisas que eu despejava ali. Olhava para o lado como quem pensa num tipo de plano que possa ajudar a amiga e depois, disparava alguma de suas frases que parecem estar sempre conectadas ao universo.

Ela me fazia explicar cada ponto de todas as decisões que eu tomara até ali. E todas as possíveis confusões que havia me metido.
Avaliávamos o caos e tentávamos juntas pensar na solução.

- Não é como da última vez. Você agora lida de um jeito mais maduro e por isso, precisa confiar que o universo vai se encarregar do que fazer, assim como eu confio.
- Preciso é deixar de ser medrosa - Pensei em voz alta - Mas é tão difícil. Eu estava indo a passos lentos mas permiti que ele ressignificasse uma porção de coisas.
- Quando é que você vai entender? Não foi ''ele'' quem ressignificou nada. Foi você. Está tudo dentro de você!

Ela trouxe à tona algo que eu já sabia, mas que ignorava.
Em seguida, abriu a janela de vidro da cozinha, apontou para a lua cheia que se apresentava para nós e disse:

- Peça! Pense no que você quer. E peça! O universo sempre vai te escutar, se for o desejo do seu coração.

Olhei para o céu. Eu já sabia o que pedir.