THERE'S NOTHING YOU CAN MAKE THAT CAN'T BE MADE.

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segunda-feira, 28 de novembro de 2016

Codinome Sam - Fragmentos Perdidos

Eles não vão perguntar sobre mim.
Mas se em virtude dos seus devaneios momentâneos, eu for mencionada, minta.
Diga que me mudei pro Alasca, que insultei seus pais. Ou conte verdadeiramente sobre o dia em que te estendi aquele tapa ardido e ofensivo na cara.
Minta dizendo que agora nós nos odiamos. Que todo aquele sentimento belo e amistoso se desfez.
Diga que eu não suportei sua instabilidade emocional. Diga que você não suportou minha loucura.
Diga que fui a pior maldição que te aconteceu.

Mas não conte que foi preciso.
Não diga a eles que nós dissemos aquele adeus triste e saudoso, já cheio de lágrimas.
Não conte que você  não só disse me amar, como também usou o adverbio de intensidade: Muito.
Não conte que num dia contraditoriamente nublado de verão, você me enviou uma mensagem dizendo se sentir sozinho depois da decisão.
Não conte que colocou parte de si mesmo em coma. E que escondeu a nostalgia debaixo do travesseiro.
Não fale das cartas e promessas de amizade duradoura. Ou da minha foto revelada no meio das suas coisas.

Não conte que mesmo distante, ouviu músicas dos Smiths que te fizeram lembrar de mim. E que naquele show de algumas semanas atrás, insistiu em me mandar áudios com trechos dessas mesmas músicas durante toda a madrugada.
Não conte os nossos apelidos. Nem os nossos traumas. Não conte, não cante, não explique.

Minta e não conte que fizemos isso em prol de um bem maior: O nosso.

Criação em: Maio/2016




quarta-feira, 23 de novembro de 2016

Conquistas banais - Fragmentos Perdidos

Ele me importuna com perguntas óbvias. Acho que é porque ele sabe que mesmo tentando ignorá-lo, eu vou responder.
Ainda me lembro da primeira vez que pus meus olhos nele. Fazia frio naquela noite, o típico frio de um outono. A primeira coisa que notei nele foram os cabelos, semelhantes àquele estereotipo pelo qual me fascinava até então. Falava com mais dois garotos, enquanto acendia o cigarro há mais de três metros de mim, na mesma calçada cheia de adolescentes.
Me aproximei e comecei a fitá-lo. Eu sempre faço isso. Uso minha primeira arma - a cara lavada de santa - e finjo não me interessar pelo que mais me chama atenção. Fiquei lá, estática, fingindo pensar na vida, passando a mão pelos cabelos - na época ainda compridos - e apenas esperei.
Ele me notaria e eu sabia, tanto que logo me notou, como eu bem queria. "Garota sem vergonha, sempre consegue tudo o que quer, não é?" foi o que eu pensei, com ar sadicamente prazeroso.
Ele me pediu o isqueiro.
Foi a desculpa mais esfarrapada que já ouvi. Afinal, ele notou que me aproximei dele, como poderia não ter notado que eu o havia visto fumando antes mesmo de chegar perto de mim? Mas até entendo, deve ter sido a única coisa na qual ele pensou naquele instante. Eu cedi o isqueiro - na época em que fumava meu ridículo L.A sabor cereja - e isso foi o suficiente pra tentar puxar um assunto qualquer. Eu apenas mencionei que ele se parecia com um dos beatles, e ele se encostou na parede usando os pés como apoio do mesmo jeito que eu fazia. Tentou parecer entretido no assunto. Acho que a primeira lição que esses garotos aprendem é a de como se manterem atentos a uma conversa inútil com uma possível conquista.
Foi o que ele fez. Não me lembro de tê-lo visto fitando meu decote (quase inexistente, diga-se de passagem) ou paralisado pela grossura dos meus lábios, perdido no que eu poderia ou não fazer com eles. Ele apenas conversou. Levantava a sobrancelha parecendo saber exatamente do que eu falava, mesmo quando eu citava algo que tinha certeza que ele poderia não conhecer. Usou comigo a expressão facil que mais tarde eu aprendi a distinguir como "dissimulada"

Criação em: Maio/2012


sábado, 5 de novembro de 2016

Estresse à dois

Eu já me sentia profundamente irritada. O trânsito terrível que me perseguiu, o transporte público com lotação máxima, os seus 12 intermináveis minutos de atraso.
Mesmo que eu caminhasse e conversasse com você, sabia que aquele não era um dia bom pra mim, como naquela frase em que ouvi muitas vezes, de que há dias em que ''nem deveríamos ter saído da cama". Suas brincadeiras me irritavam. Sua paciência em lidar com qualquer circunstâncias me incomodava - talvez pela minha tremenda inveja de te ver resolver problemas sem nenhum desespero emocional.
E foi ali que tudo começou. A minha sequência de queixas, de frustrações diárias, sendo cuspidas por mim ao final do que deveria ser uma linda e deliciosa tarde de sábado. Questionei tudo o que era passível de questionamento e seguimos novamente para a minha casa.
As poucas palavras durante o trajeto foram só mais uma forma de despejar mais uma porção de queixas e críticas, e finalmente chegamos.
Subi as escadas nervosa. Tirei meus sapatos, troquei a calça preta pela bermuda do pijama e deitei próxima do espaço que me sobrou, logo depois de você também se deitar.
Voltamos às nossas queixas. Eu me perdi numa frase e no auge do que deveria ser uma discussão séria, você me veio com uma piadinha cretina - mas extremamente engraçada.
Olhamos um para o outro e de repente começamos a rir feito um belo par de idiotas.
Em questão de segundos, você me tomou pelo braço e disse algo como: ''não vamos brigar, vai... vem cá que eu quero te dar um beijo". E eu beijei.

Simples assim. Como se todos os conflitos do mundo pudessem ser sanados por um lábio carnudo, um beijo molhado, por um abraço acolhedor ou uma piada propícia.
Como se todas as guerras pudessem ser cessadas com um sorriso largo e aberto.


quinta-feira, 6 de outubro de 2016

Farol vermelho - Fragmentos Perdidos

Parei em frente a lanchonete onde ela trabalhara até mais tarde. O plano inicial era uma cerveja à dois, afinal, estávamos sem nos ver havia pouco mais de duas semanas - e mesmo insistindo muito a pedido dela, eu continuava detestando a comunicação virtual que nos obrigava a fingir interação diária.
Ela se atrasou, mas justificou com a gentileza de sempre, parecendo grata por eu estar ali honrando o compromisso combinado.
Abriu a porta do carro e olhou atônita para as luzes do som que trazia uma altura considerável, no qual tocava músicas ''estranhas'' das quais ela nunca gostou. Eu tive certeza de que ela reclamaria da escolha daquela trilha sonora, e antes que pudesse fazê-lo, comecei a apertar o botão de sequência para encontrar algo que ela gostasse de ouvir.
Deixei em uma das minhas preferidas. Sabia que se ela não conhecesse, ao menos passaria a apreciar após alguns segundos. 
Mas, ela já havia escutado antes. E isso ficou bastante óbvio pra mim em seguida.
Paramos em um dos faróis que a avenida da lanchonete trazia e pouco antes de engatar a marcha novamente, percebi que ela escondia o rosto, virando-o para a janela, deixando que os cabelos soltos caíssem sob seus olhos e ombros. Ela deixara escorrer lágrimas tristes ao som daquela música e eu rapidamente compreendi isso muito bem. Me inclinei indicando que trocaria de canção e ela logo me advertiu para que eu não o fizesse.
Olhei-a sem conseguir responder. Não queria invadi-la perguntando a razão de tamanha tristeza. 
Ela começou a enxugar as lágrimas com as costas das mãos, que agora ficavam molhadas e escuras, cheias de resíduos da sua maquiagem.
Seguiu calada e num dado momento me olhou com ternura. Em seguida sorriu, parecendo aliviada como se quisesse me agradecer por eu estar ali, mesmo sem dizer uma palavra sequer.
Se justificou me dizendo que jamais ouviria a música Simple Man de Lynyrd Skynyrd sem sentir o peso da saudade no peito.

Ainda estávamos no outono. Era 9 de junho.

domingo, 18 de setembro de 2016

É tudo sobre o seu par de pequenos e instintivos olhos castanhos

Esperança. E tudo dela dentro dos seus pequenos e instintivos olhos castanhos.
Tudo de mim. Um tanto a mais de você.
E um vazio que se preenche sozinho, com um breve sorriso seu.
Você, que se diz tão distante do que é humano, talvez porque o humano não é necessariamente bom.
Talvez porque, pra mim, você continue sendo a esperança que as vezes falta mundo afora. Porque é só em você que eu enxergo tamanha nobreza.
Porque é no seu colo que eu quero mergulhar. E me afogar.
Essa cor nada peculiar dos seus olhos me faz ter fé na vida. Me faz te encontrar sempre que começo a fitar demais o espelho.
É em você - no seu eu já tão meu - ou nesse seu par de pequenos e instintivos olhos castanhos, que eu sou minha e sua de uma só vez.

No final, é tudo sobre você. E continuará sendo.
É tudo sobre a minha intensa e exclusivamente real história de amor, esperança e fé.
Sobre todos os sentimentos mais nobres que já tive, graças ao seu par de pequenos e instintivos olhos castanhos.


terça-feira, 6 de setembro de 2016

A primeira vez que ela se afogou

A neblina escurecia a paisagem, que por si já era bastante densa.
O mar não tinha a mesma cor clara e azul de outrora. Embora parecesse a mesma de tempos remotos, a praia agora trazia à tona um mar escuro e esverdeado.
Suzi viu aquela figura familiar entrando na água, que não trazia nem sequer uma pequena onda.
Chamou-o pelo nome, mas ele não se virou para respondê-la, nem mesmo com um breve olhar.
Continuava a caminhar em direção ao fundo, se distanciando cada vez mais da praia - que de bonita agora não tinha quase nada.
Ele seguia de forma constante, como se dali surgisse todo o tempo do mundo - ou, daquele mundo.
Ela continuou chamando-o e finalmente decidiu segui-lo mar adentro.
Ele apenas ignorava sua presença. Fingia não escutá-la enquanto ela gritava seu nome a plenos pulmões.
Finalmente, perdeu o apoio da areia nos pés, já não alcançava o chão sem que pra isso ficasse totalmente submersa.
E tudo finalmente escureceu.
Sentia a água salgada invadindo seu corpo, entrando por seus ouvidos e seu nariz. E resignada, ela compreendeu que tudo ali escureceria por completo.

Num súbito sopro, ela despertou.
Se via completamente deitada na areia fria, com o corpo dele inclinado em sua direção - lhe parecia que ele acabara de lhe fazer uma ressuscitação depois de vê-la afogar-se.
Ela lhe olhou furtivamente nos olhos, esperando que ele lhe dissesse uma palavra qualquer, mas de sua boca nada saiu. Os olhos dele, aqueles olhos castanhos em quase toda sua totalidade - mas esverdeados em volta - carregavam apatia. Não traziam qualquer expressão.
E apesar disso - como em outros momentos agora já tão distantes - pareciam lhe despir a alma.

Finalmente, Suzi acordou.
Estava segura nos travesseiros macios de sua cama.

sexta-feira, 19 de agosto de 2016

A gente insiste

A gente insiste.
Insiste na blusa desbotada que ganhou aos 17 anos. Insiste na calça 36 que já não entra mais - que, na verdade, empaca nas coxas.
Insiste em guardar notas fiscais de supermercado. Insiste em arquivar fotografias feias que nunca teremos coragem de publicar.
Insiste em manter na playlist músicas que já não são ouvidas há meses.
A gente insiste. E como insiste!
Insiste em quem machuca. Investe tempo pra se recuperar. Só pra poder se machucar outra vez.
E ainda assim: Insistir.
A gente insiste naquela amizade hipócrita que adora tecer comentários maldosos pelas nossas costas.
Insiste em fingir não saber.
Insiste naquela relação abusiva e mal resolvida. Insiste em crer que tudo logo pode melhorar.
Insiste que as pessoas podem mudar.
A gente insiste em usar uma cor que não nos cai bem. Insiste em forjar um sorriso quando a vontade é chorar.
Insiste num curso que não quer mais frequentar.
A gente insiste na humilhação. Na dor. No peso. E quase sempre falta força para apenas abandonar e seguir. A gente insiste no mesmo assunto. Nas mesmas regras. Nas mesmas ideias.
Insiste num plano que já deu errado uma vez. Duas. Três.
Insiste nas lembranças que teimamos em não deixar pra trás.
Insiste e se apega a cada mísera tentativa.

A gente simplesmente aprende a insistir. Confundimos a incessante insistência com coragem, negando a nós mesmos o direito de sermos honestos com os outros e, em especial, conosco.
A gente desiste e se confronta depois com a recusa dessa desistência. Porque no final a gente insiste.

A gente sempre insiste.