Fui passear pela minha coleção de fragmentos e rascunhos. Textos que escrevi ao longo de todos esses anos, enquanto nem imaginava que te encontraria.
Me vi mais jovem, romantizando o fato de me envolver com pessoas tão absurdamente diferentes de mim.
Percebi nas minhas eloquentes palavras a capacidade de ignorar coisas que eu julgava significativas e abafar vontades, numa tentativa desesperadamente falha de caber em espaços pequenos demais pra mim.
Estava constantemente apaixonada pela ideia de me apaixonar, de viver um amor que eu acreditava ser capaz de curar as minhas inquietações e tudo o que eu achava que existia de incoerente no meu íntimo, sem sequer compreender que a minha real intimidade sempre pertenceu somente a quem eu sou.
quarta-feira, 1 de junho de 2022
Brilho eterno de rascunhos aleatórios de quem eu fui e não sou mais
segunda-feira, 23 de maio de 2022
Será?
Quantas variáveis cabem num ''será''?
Quantas deveriam caber dentro da gente?
"Será" é tudo o que não foi e poderia ter sido. Ou o que pensamos não ser e de fato, é.
São todas as possibilidades que a gente ignora pra não enlouquecer. São todas as vontades que a gente reprime pra não padecer.
"Será" são todos os "quase", os "talvez", os "e se..."
Sugere um questionamento retórico.
Parece até um insulto a minha inteligência, uma forma muito bem colocada de me fazer duvidar de tudo o que eu sempre achei que sabia. E o meu contato com toda a incerteza que sempre habitou dentro de mim.
quinta-feira, 24 de março de 2022
Cicatrizes
Cicatriz: Fechamento de lesão na derme provocada por acidente ou cirurgia. Quando acontece a ruptura da derme, o colágeno vai sendo remodelado de maneira que a lesão seja fechada até que haja a regeneração das células no local ferido, gerando uma marca.
Não somos nós quem definimos o tempo de cura das nossas cicatrizes.
Toda vez que penso nas mais profundas desses últimos tempos, eu me lembro de perdoar as anteriores e de olhá-las com cuidado.
Aquelas cicatrizes que pareciam mortais, que foram criadas de forma tão intensa...
Hoje posso entendê-las melhor. E entender um pouco de quem ajudou a criá-las em mim.
E olho com tamanho entendimento que até me espanta. Entendimento esse que nunca me veio tão claramente.
Eu nunca achei que fosse agradecer pela existência dessas cicatrizes, mas foram elas que me ajudaram a me sobressair quando eu caí de novo.
Sigo tentando cauterizá-las, mesmo sabendo que exigem de mim a paciência que eu também nunca tive.
A verdade é que nunca imaginei que uma cicatriz que sangrasse tanto, fosse a responsável por me fazer sobreviver.
terça-feira, 15 de março de 2022
Só de passagem
Quando abri essa singela página cuja foto não muda já há alguns anos, percebi que de tantos pensamentos expressados ao vivo nos últimos meses, e de tantos outros que usei como base para filosofar; sequer fui capaz de escrever uma mísera linha sobre eles.
Sinceramente, acredito que é disso que meu pai fala todas as vezes em que insiste para que eu evidencie o meu talento.
É definitivamente sobre isso. Sobre a minha total falta de cuidado para com o meu dom mais precioso.
Eu tive incontáveis inspirações nesse meio tempo que corresponde ao mês de Setembro até aqui.
Foram infinitas experiências e todo o processo que as tornaram parte fundamental do que estou me tornando.
Foram inúmeras análises de mim para comigo mesma e todo o aprendizado do qual abertamente falei, mas que ainda assim, não expressei em um dos meus cantos mais valiosos: Esse aqui.
Quando abro a página inicial desse meu mundinho, eu me revisito. Olho no fundo dos meus olhos com vinte e tantos anos, recém saída de uma das relações mais importantes da minha vida e pronta para me perder numa outra vida apaixonante que eu já sabia que também não me pertencia.
Perdi a conta de quantas foram as vezes em que eu me busquei tentando me encontrar a todo custo.
E agora que finalmente me encontrei, eu enfrento os medos que são infinitamente reais em comparação aos anteriores.
Contraditoriamente sei que esse é o momento em que eu não posso temer nada.
Só passei por aqui. Por curiosidade.
Pra me lembrar de quem eu sou. De quem eu já fui.
Só passei. Porque de fato, estou só de passagem mesmo...
quinta-feira, 30 de setembro de 2021
Para me perder de tudo o que eu achei que sabia
Para me perder de tudo o que eu achei que sabia. Para me desfazer de quem eu já havia sido. Para me desafiar cuidar mais pacientemente de alguém. Para me desconstruir dos meus antigos erros e criar em mim a fé em novos acertos.
terça-feira, 6 de julho de 2021
Eu sou, eu fui, eu vou
Eu sou todos os sonhos não realizados da minha mãe. Todas as vezes em que seu amor foi maior que seu cansaço.
Eu sou todas as histórias do meu pai e o modo como também aprendi a contá-las, tornando-as minhas.
Eu sou o primeiro grande amor do meu irmão. E toda a sua coragem em enfrentar a vida.
Eu sou todas as músicas que já ouvi. E meu nome traz algumas das minhas preferidas, que eu acredito ter sido compostas por artistas geniais.
E sou todas as minhas falas de antes. Que mudaram e agora não se encaixam mais em quem eu me tornei.
Eu sou todas as ideias que já tive e todas que ainda terei. Todos os amores que guardei e todos os que não jurei.
Eu sou John, Paul, George e Ringo. Talvez mais Paul que John. E certamente muito mais George que todo o resto.
Eu sou tudo. Um infinito impermanente, complexo e distinto. E sou todas as coisas que não sei e sequer vou descobrir.
E como já dizia Raul: Eu sou, eu fui, eu vou.
sábado, 12 de junho de 2021
Tudo o que poderia ser. E mais do que eu imaginava que seria
Olhei para o relógio inúmeras vezes no mesmo minuto. Em seguida, olhei fixamente para o painel do carro e para o aplicativo, que entregava em quanto exatamente eu chegaria.
Os dois minutos que me separavam do meu destino final pareciam uma pequena eternidade. Junto dela, a incerteza que pairava sobre mim, já que eu não sabia se te encontraria ali.
Quando cheguei, seu rosto foi o primeiro de tantos que eu avistei e mesmo antes de entrar, senti meu coração acelerando.
Você me olhou e sorriu.
Sorriu com os olhos, como se de alguma forma a minha presença representasse muito. E, logo em seguida me abraçou.
Seus olhos me acompanhavam e me seguia nos momentos em que eu conversava com outros de nossos amigos. Nos momentos em que eu te devolvia o mesmo olhar retraído, percebia em mim que ainda existia muita vontade em te dizer tudo o que eu guardava de bom a cada vez que me ocorria você à mente.
Seu cuidado se escondia dentre os seus receios e a sua tão amistosa timidez, e eu só fui compreender um tempo depois que, assim como eu, você se sentia um criança encabulada.
Passei longas horas daquela noite sabendo o motivo pelo qual o meu coração escolheu viver um sentimento como aquele.
Entendi, então, que a melhor parte de amar você era justamente o fato de amar alguém que era uma realidade, não mais uma projeção do meu desejo inconsciente. Você era tudo. Tudo o que poderia ser. E até mais do que eu imaginava que seria.
Não te transformar em uma das minhas tantas figuras imaginativas e transitórias fez o meu sentimento por você parecer assim, tão possível.
