Assumi que pularia o muro, mas até então não havia pulado de fato.
Jamais estive tão perto de pular o muro antes. E me gabei que o faria agora, mas não fiz.
Peguei minha criança interior pela mão e guiei-a até o limite do que separava meus pensamentos e nossos mundos - que talvez nem fossem tão distintos assim.
De fato, ter aprendido a ser quem eu sou me trouxe a percepção de vagar entre os infinitos continentes que existem dentro de mim, e por qualquer razão que eu ainda desconheço, existe um campo imenso desse território nem eu fui capaz de desbravar.
Sinto que dele vem boa parte das respostas que eu procuro desde muito cedo, o enigma das falhas da minha personalidade e, ainda assim, toda a condição necessária para uma transformação que invejaria até a mais bela das borboletas.
Me enxerguei como o ser humano mutável que eu nunca poderia adivinhar ser. E passei a verdadeiramente me amar por isso.
Dentro de dilemas, incongruências e versos soltos que eu ainda não anexei a textos que estão parcialmente criados na minha cabeça, eu consigo entender o olhar que a minha criança interior lança sobre mim.
Talvez com uma genuína bondade tenha em si o medo de se perder, já que esse medo também, é meu. E a felicidade em saber que, mesmo sendo assim tão mutável, eu nunca mais vou me perder de mim.
Ele me puxou pela mão, me perguntou se faríamos dar certo.
Me olhou com uma convicção invejável e eu, que já não queria esconder mais o que eu sentia, comecei a disparar tudo o que eu pensava.
- Você não sabe o quão pavoroso é saber que somos duas pessoas assim tão diferentes e que, mesmo essa sendo a nossa realidade, eu não consiga lidar com o fato de ser louca por você, de ficar assim um pouco mais a cada dia, e, de me perguntar o que vai ser de mim se tudo der errado.
Ele sorriu. Um dos sorrisos mais bonitos que já vi naquele rosto, que normalmente costumava ser tão sério.
Sorriu e me olhou com a ternura de quem queria me abraçar e me pegar no colo, como uma criança que acabara de fazer qualquer descoberta fascinante.
- Por que você tá rindo?
Ele sorriu de novo antes de me responder.
- Achei lindo o que você disse.
Em seguida, vi uma lágrima escorrer por seu rosto. Me desarmei completamente e apoiei uma das minhas mãos para enxugá-la.
- Não chora - Eu pedi.
Ele segurou minha mão e disparou ainda com um meio sorriso:
- É de felicidade.
Eu passei boa parte da minha vida acreditando ser desprovida de muitas habilidades.
Na 5ª série, fui uma das poucas meninas da minha sala que conseguiu ultrapassar todos os limites de nota baixa adquirindo um absurdo ''E'' numa prova de matemática, que conseguia ser ainda pior que o ''D'' - que de longe já era a nota mais vergonhosa que se poderia tirar.
Eu nunca fui a primeira em nada e levei um certo tempo para querer me tornar alguma coisa.
A única noção básica que sempre tive foi a de que eu queria ser feliz. E aceita. E esses dois desejos em conjunto às vezes pareciam impossíveis.
Eu desenhava bem, essa sempre foi uma qualidade. Mas o fazia por hobby. Porque era o meu jeito de expressar minhas emoções, ou de inventar uma roupa que eu adoraria vestir e que se desenvolvia apenas na minha cabeça. As vezes, criava estórias em quadradinhos inspiradas em personagens que eu adoraria ter coragem de ser.
Eu atuava bem, tinha um certo talento para artes cênicas e ainda assim custei a ingressar no teatro.
Inventava enredos de novelas e viver isso como realidade me parecia tão distante que eu guardava os melhores detalhes somente pra mim.
Eu não era a mais bonita e certamente me alivia a ideia de não ter sobrado qualquer foto da minha adolescência para reafirmar esse fato.
Aprendi violão com a minha mãe, mas não o suficiente para me tornar uma musicista. Não o suficiente para ser como ela.
Eu era eu. A garota que sabia um pouco de tudo e não se aprofundava em nada. A aluna nota ''B''. Porque buscar um ''A'' exigia demais de mim e eu sequer tinha concentração para tentar.
Eu era um pouco de tudo. A garota que sabia cantar, mas não o bastante para tentar carreira com isso. A garota que aprendeu a cozinhar o básico porque não tinha paciência para lidar com o fogão.
Só depois de muito tempo olhando pra quem eu era, percebi que saber um pouco de tudo me levou a entender que eu queria saber mais. E eu não poderia sem o mínimo entendimento. Se eu não soubesse todas as coisas que eu já sabia.
Ter certa aptidão para artes me transformou em um projeto de escritora e roteirista, e esse se tornou o meu grande sonho. Saber desenhar me levou para o campo da criação e do desenvolvimento de artes publicitárias, que não são as melhores que já vi, mas que estão cada dia mais bonitas, ganhando sempre um toque da minha personalidade.
Não tirei mais nenhuma nota vermelha em matemática porque nunca mais precisei entender equação de 2º grau - e sinceramente nunca a utilizei pra nada.
Não sou musicista, mas sou boa em tocar todas as minhas músicas preferidas.
Aprendi a ser eu com todas as minhas melhores ferramentas. E a não me menosprezar por isso. Ser eu sempre foi a meta e até onde eu posso ver, de uma forma muito particular estou sempre trazendo isso à tona.
Toda a sensibilidade que se pode esperar de uma ''pseudo-artista'' me trouxe compreensões que nem sempre são visíveis aos olhos dos outros. E eu me tornei quem eu sou.
Um pouco melhor que antes. Todos os dias.
- Eu não queria outra mulher, ela era quem eu queria e eu tinha certeza disso. Mesmo quando estava doente, eu não queria e não podia largá-la. Ela era a mãe dos meus filhos.
Após ouvir essas palavras vindas do meu pai, Kim apertou minha mão com firmeza e olhou nos meus olhos como quem diz ''eu faria o mesmo por você''.
Meu pai se orgulhava de mencionar sempre essa história. E eu passei a minha vida fixada à ideia de que comigo não podia ser diferente. Era um modo de entender que o sinônimo de amor é não desistir. Que antes de se tornar leve, o amor exige esforço, exige reconhecimento e exige, também, coragem.
Foi esse o amor que eu sempre recebi em casa, mesmo no auge da minha imaturidade adolescente, mesmo quando eu acreditava não ser compreendida, por estar ocupada demais tentando me achar em mim mesma e agindo com uma certa empáfia.
Mas mesmo depois de um desentendimento, bastava um simples ''você sabe que eu te amo'' e a intenção de melhorar as coisas, para que eu fosse perdoada e nunca deixasse de me sentir aceita.
Foram os muitos relacionamentos - ou bons e os que exigiram de mim uma força psicológica maior do que eu possuía na época - que me trouxeram o entendimento do que eu desejava ter na vida.
Que mais do que uma história bonita, eu queria uma história real. Eu queria ser amada pelo que eu era.
E, de uma forma muito peculiar e nada comum - bem digna do tipo de pessoa que eu acredito ser - eu consegui isso.
De um jeito maluco, no meio de tudo o que eu estava buscando dentro de mim, eu me achei e achei a certeza que eu via na história que construiu a minha família.