THERE'S NOTHING YOU CAN MAKE THAT CAN'T BE MADE.

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sexta-feira, 8 de junho de 2018

Panelas

Minha mãe sempre foi rígida com suas próprias panelas de inox. Para todo adulto que se preze, uma panela de antiaderência é motivo de alívio e orgulho.
No caso dela, o grau de importância era ainda maior que para as demais pessoas, afinal, minha mãe é do tipo que se gaba a cada delicioso prato preparado. Ela coloca toda a sua alma no preparo do mais simples arroz com feijão.
Indo até o novo endereço do meu irmão, me deparei com a irremediável nostalgia de sua bagunça organizada. Nela eu identificava um pouco das coisas com as quais convivi até que fossemos separados pela rotina e pelas circunstâncias. Eis que na cozinha, junto ao móvel e nosso antigo microondas, noto três das seis panelas antiaderentes que minha mãe tanto amava.
De início penso ser um engano, um possível esquecimento da parte da minha tão amada cozinheira. E então me lembro de que abrir mão de metade do seu conjunto de panelas preferido para ajudar o filho era uma atitude bastante óbvia vinda dela.
Ela resolvera, de forma simples e tranquila, doar parte desse seu tesouro. Era uma forma de assegurar um certo conforto, afinal, qualquer alimento preparado naquelas panelas pouparia o trabalho na hora de lavar a louça.
Era, também, uma maneira de se certificar de que seu filho se alimentaria direito. Afinal, ele tinha agora panelas para facilitar isso.
Aquele era -  dentre tantos outros jeitos que conheci - um modo de dona mari angela cuidar de seu caçula, como quem diz "me preocupo e estou com você".
Aquele era mais um modo de dizer eu te amo.

quarta-feira, 23 de maio de 2018

Você nunca me pediu perdão - Um texto de despedida

E te dizer isso hoje é só uma forma de mostrar que eu já não espero por isso.

Você nunca me pediu perdão. Por nenhuma das vezes em que ignorou minhas ligações por pura pirraça, por nenhuma das vezes em que me julgou como uma pessoa sem freio e completamente desequilibrada.
Você nunca me pediu perdão por toda a exposição a qual fui submetida pelo simples fato de bancar a minha decisão de estar perto de você. Por todas as vezes em que eu senti falta de ar depois de chorar compulsivamente. Por todas as vezes em que você me tratou com ódio ou demonstrou profundo desprezo por tudo o que eu sentia.
Por todas as vezes em que eu quis não existir, você nunca me pediu perdão.

Você nunca me pediu perdão por todas as vezes em que apontou o dedo para as minhas falhas e os meus erros. E você nunca se desculpou pelas injúrias, pelas palavras tortas, pelos transtornos que me fizeram pensar em desistir até do meu emprego.

Você nunca me pediu perdão por me manter deliberadamente na sua mão, por todas as vezes em que eu quis ir e você não deixou. Por todas as vezes em que você usou o amor como argumento pra que eu não me afastasse de vez.
Você nunca me pediu perdão. E eu esperei que esse perdão fosse suplicado em algum momento.

Mas hoje, com o coração leve, eu te digo que não mencionei muitas coisas pelas quais você deveria ser perdoado, talvez porque eu tenha simplesmente esquecido e apagado. Talvez porque esse seja o indício de que eu não vou mais falar de você. Que esse é o meu último texto sobre qualquer coisa que ficou. Que talvez, agora, eu esteja finalmente compreendendo que eu já te perdoei e posso seguir o meu caminho.

Mesmo sabendo que você nunca me pediu perdão.

terça-feira, 22 de maio de 2018

Esse é um texto feliz sobre uma pessoa triste

Hoje te vi na rua.
Depois de longas semanas sem sequer cruzar o seu caminho. Eu me virei na sua direção para te dizer oi. Você acenou com a cabeça, se mantendo sério, como se fosse esforço demais ser agradável logo pela manhã.
E percebi, naquele momento, que eu já não sentia meu coração palpitando, eu já não sentia náuseas, eu já não sentia euforia. Eu já não sentia nada.
Eu te olhei e para minha surpresa, você não tinha nada de especial. Não brilhava e já não era mais atraente. Você era parte da paisagem. Era igual a todos os outros que atravessariam a avenida. E era triste.
A sua feição - parcialmente escondida atrás do óculos de sol - demonstrava a insatisfação em estar ali.  Talvez em me ver, talvez em acordar cedo, talvez em ter a vida que tem. E eu percebi isso com clareza, sem me martirizar. Eu conclui isso com a plenitude de não ser impactada por nenhuma das suas reações - ou a falta delas.

Hoje te vi na rua e você era triste.
Mas esse texto eu escrevo feliz. Porque sou esse mesmo oposto agora.
Porque estou em paz comigo mesma - e também com você. Que agora virou uma pessoa igual a todas as outras.




segunda-feira, 21 de maio de 2018

Cante por nós

Eu era a pessoa que batia no peito pra dizer: prefiro um bom filme na cama à qualquer balada por aí. Eu dizia isso com aquele ar ligeiramente arrogante de quem se considerava intelectual demais para sucumbir às mesmices de uma maioria.
Mas, eu me esqueci de que para ter propriedade no que eu dizia, eu precisava viver aquilo de algum modo, e de preferência, de coração aberto.
Nas vezes em que eu olhei com desdém pra quem adorava as tais baladas, festas e festivais, eu me esqueci de considerar que cada pessoa é, em sua plenitude, um universo inteiro e completo. Me esqueci de analisar que se o que eu desejei por um curto espaço de tempo tivesse se concretizado, eu estaria agora vivendo os meus finais de semana numa sala de estar à base de ideias de produtores e diretores que conseguiram conclui-las para entreter a pessoa que eu teria me tornado. Eu estaria na minha antiga e patética corrida contra o tempo para atualizar o meu perfil do filmow.
Se o meu julgamento coubesse perfeitamente no meu antigo discurso blazê, eu não teria sentido o meu coração explodir dentro do meu peito ao som do espetáculo que vi de perto. Eu não teria recebido o olhar e o beijo à distância de um ícone da música atual. Eu não teria me emocionado da forma como me emocionei.
Se eu não tivesse me permitido vivenciar essa experiência, eu não teria visto todas as cores e luzes que vi em volta de mim ao lado de pessoas que me abraçaram, me ergueram, me acolheram, beijaram e seguraram a minha mão em grande parte do tempo em que estive ali.
Eu continuo louca por todos os meus filmes preferidos. Mas não quero mais somente viver os sonhos da tela quadrada. Não quero mais me concentrar em viver os sonhos de outra pessoa. Bem como, me interesso cada vez menos por pré julgamentos alheios - e isso inclui os meus.

Eu me interesso, nesse momento, em cantar numa só voz.
Do modo como cantei. Do modo como fui ensinada a cantar.

E se eu errar, que alguém cante por mim.
Cante por nós.

segunda-feira, 7 de maio de 2018

Gratidão

A minha gratidão vem do som da tua voz, vem daquela tua mania de falar com sotaque nordestino, que antes eu só achava graça e que agora eu também imito.
A minha gratidão vem do teu jeito de me sentir, do teu modo sempre positivo de pensar, de revolucionar. Vem das tuas meditações, do teu empoderamento, da tua maneira em ensinar o daimoku.
A minha gratidão vem do teu cuidado ao me curar, da tua calma ao me amparar, da tua intensidade ao me fazer viver. Vem do pôr do sol que entra pelo vidro da tua janela. Vem da tua alma pura, do teu coração nobre que me acolheu. Que de tantas pessoas que já vieram e foram, sei que quem mais aprendeu fui eu.
A minha gratidão vem dos teus olhos. Vem do formato que eles tem e de tudo o que eles me dizem quando você sequer abre a boca pra dizer.

A minha gratidão não cabe nestas poucas palavras, mas ela e toda a minha força mostram que eu a entrego a você.

quinta-feira, 26 de abril de 2018

- Por que toda vez que a gente conversa parece que existe uma conexão de outro planeta?
- Porque você é o David Bowie, veio de outro planeta. E eu sou bom demais pra esse mundo.

- Eu te odeio. Já te disse isso hoje? rs.

terça-feira, 24 de abril de 2018

Julia no céu com diamantes

Você me mostrou todas as cores que eu vi naquele dia. Elas tinham vida própria.
Nós começamos a dançar, cercados de todas as luzes que o universo nos deu. E percebi que naquele exato momento eu era apenas eu. Mas muito mais do que havia sido antes.
Eu era a morsa, como John Lennon foi um dia.
E eu enxergava diamantes, como Lucy. E flutuava com os pés no chão, ainda assim, como se fosse capaz de voar.
Eu era Alice. E você, o gato, porque ao desaparecer, seu sorriso se tornava o único que eu via em meio ao incrível efeito da luz neon.
Todos os detalhes se moviam. Os desenhos dos azulejos ganhavam vida. As flores do papel de parede, de repente, tinham um toque de mágica e nelas era possível enxergar o vento batendo como num único sopro. E você continuava sorrindo...
Tocou o meu rosto com carinho. Me agradeceu por aquele momento e continuou a sorrir.
Abri os braços e os entreguei ao céu que, por sorte, explodia de estrelas.

As músicas chegavam ao fim. Você permanecia terrivelmente alegre e cheio de emoção.
E continuava sorrindo...
Eis que aquela era a minha insuportável felicidade. Vivi de mim o melhor da minha existência enquanto deslizava os pés pelo que chamamos de pista de dança improvisada.

E naquele momento, além de ser infinita, eu tinha olhos de caleidoscópio.
E você? Você continuava sorrindo...

Everyone smiles as you drift past the flowers.