THERE'S NOTHING YOU CAN MAKE THAT CAN'T BE MADE.

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quarta-feira, 17 de outubro de 2018

Garupa

Parou a moto no farol vermelho. Era hora dos outros carros passarem.
Ele se virou, com certa dificuldade em conseguir me ver, já que o capacete atrapalhava sua visão e não oferecia mobilidade ao seu pescoço.
Ainda assim, eu conseguia ver os olhos dele - os maiores olhos puxados que já vi. Há quem diga que japoneses têm olhos pequenos, mas na verdade, essa é uma característica peculiar e ao meu ver, uma bonita qualidade física da família shimanoe: olhos grandes.
- Eu sou feliz com você, sabia? - Ele indagou num misto de carisma e seriedade.
- De onde veio isso? - Eu perguntei surpresa.
- Eu precisava dizer.
- É mesmo? - Eu abandonei minha surpresa e transformei-a num sorriso ingênuo que preenchia todo o capacete que eu usava.

Meu peito se encheu novamente daquela estranha gratidão, a mesma que senti outrora e que há tanto já lhe dediquei.
Enquanto ele pilotava, me veio a breve compreensão do óbvio e me peguei dizendo a mim mesma: Vou me lembrar desse momento pelo resto da minha vida.

quarta-feira, 10 de outubro de 2018

Ele brinca de viver

Você pulava as escadas e eu tinha quase certeza de que em algum momento você iria se matar.
Mas era só o seu jeito de me fazer sentir parte do grupo e a sua capacidade de nos fazer ver possibilidade em tudo, como quem diz ''olhe pra mim, eu posso voar".
Eu levei algum tempo pra entender que você não se importava com o que quer que pensassem a seu respeito, até porque, no final das contas, todo mundo sempre pensava bem.
Sei hoje sobre você bem mais do que eu imaginei que saberia algum dia.
E tomada pelo seu modo de ser, eu sempre me sinto em débito com a sua bondade.

Certa vez, há muito tempo, ouvi uma música dedicada a mim pelo meu pai, onde a letra dizia ''você verá que é mesmo assim, que a história não tem fim... continua sempre que você responde sim à sua imaginação, à arte de sorrir cada vez que o mundo diz não''.

Nessa música, também, a seguinte mensagem: ''e eu desejo amar todos que eu cruzar pelo meu caminho.. como sou feliz, eu quero ver feliz quem andar comigo''.

E esse é você. É a sua essência.
O nome da música - brincar de viver - é o que descreve quem vejo quando sou tomada pela gratidão que você, mesmo sendo mais novo e muito mais maluco que eu, me ensinou a ter pela vida e por tudo o que me cerca e me move.

terça-feira, 2 de outubro de 2018

Menino Buda

As marcas tatuadas nos teus braços dizem de você mais do que tudo o que você já disse de si mesmo.
Nasceu com o dom do riso fácil, do sorriso leve e largo. E é nesse riso que eu mergulho pra me encontrar comigo mesma, nas horas amargas do meu ceticismo e quando entendo que preciso - de novo - de algo para acreditar.
É no som da tua risada que eu acho o meu tão necessário e procurado estado de aquietação.
Nas tuas filosofias aplicadas pra vida é que me encontro pra caber um pouco mais num mundo que, ora me enaltece, ora me derruba. Nos teus caminhos eu encontro, também, a gratidão para aceitar essas quedas com humildade, com gentileza para com a minha essência e sobre quem eu sou.
Nos teus pensamentos eu me advirto de que cada ser humano é um universo. Que assim é pra mim e que em você identifico uma das galaxias mais bonitas que eu já visitei nesses longos e caros 26 anos da minha existência.

As marcas tatuadas em mim precisam de um pouco mais de você e do teu amor pela vida.


terça-feira, 11 de setembro de 2018

Mosby

Era como ele gostava de viver. Sempre adoecido de paixão por todo o tipo possível de garota que cruzava o seu caminho.
Vivia da intensidade tudo o que ela permitisse, até que todo o resto desmoronasse na sua própria cabeça, na utópica teimosia digna de um eterno apaixonado.
Metia os pés pelas mãos quase sempre, na incansável esperança de encontrar o que as pessoas chamam nos seriados românticos de "a tampa da panela" ou talvez "a metade da laranja" ou ainda assim "a alma gêmea", mencionada tantas vezes em belas poesias e textos como este.
Mosby como só ele, custou para se encontrar em si mesmo, embora parecesse o tipo de cara decidido, desses que sustenta uma estrutura concreta só com a força dos braços.
Lebenslanger schick schatz. Essa era exatamente a definição do que ele procurava. Tentou achar aqui, ali, acolá. Assim como Ted, que levou 8 temporadas procurando, ele buscava desesperadamente desde muito novo. Era um idealista, um romântico e um sonhador. Desses que bem provavelmente a gente só é capaz de encontrar em enredos de filmes dos anos 50.
Foram incontáveis batalhas, lutas e questionamentos diários que ele dedicou ao universo para que pudesse se compreender melhor e, para, quem sabe num futuro próspero, encontrar a conexão do que ele ainda não tinha sentido.
O momento com a garota, com o que seria para ele diferente de tudo o que vivera antes. E embora não fosse debaixo de um temporal, escondendo-se sob um guarda-chuva amarelo, seria considerado por ele um dos grandes encontros de sua vida.

segunda-feira, 3 de setembro de 2018

- Eu gostei de te levar pra comer hoje.
- Eu também gostei.
- Gostei de fazer algo por você.
- Você sempre faz.
- Ah, você me entendeu...
- Você também.

terça-feira, 7 de agosto de 2018

O chão do banheiro mágico

Agachamos no chão do banheiro, que era iluminado por uma lâmpada brilhante e colorida, cheia de desenhos que circulavam pelas paredes.
Sentei ao lado de Guilherme, que estava próximo de Rafael, que sentou na frente de Bruna, que estava ao lado de Matheus.
Demos as mãos. E fascinados, fitávamos as cores refletidas no box do cômodo e em cada um dos rostos ali.
No elo - criado por eles muito antes do meu surgimento em suas vidas - só existia a verdade. A falta dela não era parte de nossa atmosfera, de nosso inocente afeto e do porto seguro que construímos juntos, para nos agarrarmos uns aos outros em todas as circunstâncias do que foi - e também de tudo que ainda seria.
Éramos nós. E éramos infinitos.
Beijávamos as mãos uns dos outros, como se o beijo fosse um brinde.
Eu encostava minha cabeça no ombro de Guilherme, que segurava firme a mão de Rafael, que tinha as mãos acalentadas por Bruna, que repousava a cabeça de Matheus em seu colo.

Me lembrava da frase na música de uma antiga banda que eu gostava, onde o intérprete questionava: Se tudo o que eu preciso se parece, por que é que não se junta tudo numa coisa só?

E então, junto das demonstrações nítidas de afeto, veio - uma vez mais - a minha forma mais pura de consciência, de compreender que naquele momento eu atraía tudo o que eu transmitia. A luz colorida do banheiro transformava seu chão em um campo mágico e nossos olhos em pedras claras de luz que refletiam como caleidoscópios.

Desse modo, eu sabia que poderia não ser de fato infinita, mas já estava eternizada na memória ali.


quinta-feira, 5 de julho de 2018

Carta ao grande mestre jedi


Caro mestre,

Eu tive medo. Continuo com um pouco desse sentimento atrelado a todos os meus passos, como você bem deve saber.
Tenho medo do futuro, do que vislumbro. E tenho, também, medo do meu passado e da força que já dei a ele.
Tenho medo da energia obscura dos meus pensamentos. E como, num piscar de olhos, eu poderia ser conduzida ao lado negro da força.
Percebo em mim o medo em falhar, em fracassar nessa árdua tarefa que é cuidar de mim. Percebo o receio em me perder. E percebo a sua paciência em me guiar. Percebo cada detalhe das suas batalhas internas, especialmente as que dizem respeito a mim, como sua pupila.
Hoje sou bem mais do que fui outrora, mas ainda não sou o que deveria. Nós dois sabemos disso. E a verdade é que você está sempre encontrando maneiras únicas de me fazer enxergar, bem como eu sempre soube que faria.

Caro mestre jedi, eu tenho muito a agradecer. E a oferecer.
Tenho a força em mim para descobrir. E peço que continue segurando a minha mão nas grandes adversidades que sei que ainda terei nesse caminho.