THERE'S NOTHING YOU CAN MAKE THAT CAN'T BE MADE.

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terça-feira, 7 de agosto de 2018

O chão do banheiro mágico

Agachamos no chão do banheiro, que era iluminado por uma lâmpada brilhante e colorida, cheia de desenhos que circulavam pelas paredes.
Sentei ao lado de Guilherme, que estava próximo de Rafael, que sentou na frente de Bruna, que estava ao lado de Matheus.
Demos as mãos. E fascinados, fitávamos as cores refletidas no box do cômodo e em cada um dos rostos ali.
No elo - criado por eles muito antes do meu surgimento em suas vidas - só existia a verdade. A falta dela não era parte de nossa atmosfera, de nosso inocente afeto e do porto seguro que construímos juntos, para nos agarrarmos uns aos outros em todas as circunstâncias do que foi - e também de tudo que ainda seria.
Éramos nós. E éramos infinitos.
Beijávamos as mãos uns dos outros, como se o beijo fosse um brinde.
Eu encostava minha cabeça no ombro de Guilherme, que segurava firme a mão de Rafael, que tinha as mãos acalentadas por Bruna, que repousava a cabeça de Matheus em seu colo.

Me lembrava da frase na música de uma antiga banda que eu gostava, onde o intérprete questionava: Se tudo o que eu preciso se parece, por que é que não se junta tudo numa coisa só?

E então, junto das demonstrações nítidas de afeto, veio - uma vez mais - a minha forma mais pura de consciência, de compreender que naquele momento eu atraía tudo o que eu transmitia. A luz colorida do banheiro transformava seu chão em um campo mágico e nossos olhos em pedras claras de luz que refletiam como caleidoscópios.

Desse modo, eu sabia que poderia não ser de fato infinita, mas já estava eternizada na memória ali.


quinta-feira, 5 de julho de 2018

Carta ao grande mestre jedi


Caro mestre,

Eu tive medo. Continuo com um pouco desse sentimento atrelado a todos os meus passos, como você bem deve saber.
Tenho medo do futuro, do que vislumbro. E tenho, também, medo do meu passado e da força que já dei a ele.
Tenho medo da energia obscura dos meus pensamentos. E como, num piscar de olhos, eu poderia ser conduzida ao lado negro da força.
Percebo em mim o medo em falhar, em fracassar nessa árdua tarefa que é cuidar de mim. Percebo o receio em me perder. E percebo a sua paciência em me guiar. Percebo cada detalhe das suas batalhas internas, especialmente as que dizem respeito a mim, como sua pupila.
Hoje sou bem mais do que fui outrora, mas ainda não sou o que deveria. Nós dois sabemos disso. E a verdade é que você está sempre encontrando maneiras únicas de me fazer enxergar, bem como eu sempre soube que faria.

Caro mestre jedi, eu tenho muito a agradecer. E a oferecer.
Tenho a força em mim para descobrir. E peço que continue segurando a minha mão nas grandes adversidades que sei que ainda terei nesse caminho.

O meu "vicio e o verso" - Fragmentos Perdidos

Você é aquela fresta de luz que entra pela minha janela logo no sábado de manhã.
É o cheiro de chuva no fim de tarde.
Você é a minha vontade em ser quem eu sou. E um pouco mais.
Você é o muito que o meu pouco traz. É calmaria na tempestade. Resiliência no desespero.
Você é aquele cheiro de café que eu tanto gosto. É o meu quadro na parede. É a minha cor de batom preferida.
Você é ordem no caos. É o vicio e o verso.
É o tempero da carne. O doce do açucarado. O tinto do vinho. E você me embriaga.
Você é o verso bonito que eu esqueci de publicar. O verde de todos os faróis de São Paulo.
Você é começo. Meio. E nunca o fim.
Você nunca sai de mim.
Você é a certeza que mais me assusta. A coisa mais impropriamente pura que eu criei.


Criação em Outubro: 2017

sexta-feira, 8 de junho de 2018

Panelas

Minha mãe sempre foi rígida com suas próprias panelas de inox. Para todo adulto que se preze, uma panela de antiaderência é motivo de alívio e orgulho.
No caso dela, o grau de importância era ainda maior que para as demais pessoas, afinal, minha mãe é do tipo que se gaba a cada delicioso prato preparado. Ela coloca toda a sua alma no preparo do mais simples arroz com feijão.
Indo até o novo endereço do meu irmão, me deparei com a irremediável nostalgia de sua bagunça organizada. Nela eu identificava um pouco das coisas com as quais convivi até que fossemos separados pela rotina e pelas circunstâncias. Eis que na cozinha, junto ao móvel e nosso antigo microondas, noto três das seis panelas antiaderentes que minha mãe tanto amava.
De início penso ser um engano, um possível esquecimento da parte da minha tão amada cozinheira. E então me lembro de que abrir mão de metade do seu conjunto de panelas preferido para ajudar o filho era uma atitude bastante óbvia vinda dela.
Ela resolvera, de forma simples e tranquila, doar parte desse seu tesouro. Era uma forma de assegurar um certo conforto, afinal, qualquer alimento preparado naquelas panelas pouparia o trabalho na hora de lavar a louça.
Era, também, uma maneira de se certificar de que seu filho se alimentaria direito. Afinal, ele tinha agora panelas para facilitar isso.
Aquele era -  dentre tantos outros jeitos que conheci - um modo de dona mari angela cuidar de seu caçula, como quem diz "me preocupo e estou com você".
Aquele era mais um modo de dizer eu te amo.

quarta-feira, 23 de maio de 2018

Você nunca me pediu perdão - Um texto de despedida

E te dizer isso hoje é só uma forma de mostrar que eu já não espero por isso.

Você nunca me pediu perdão. Por nenhuma das vezes em que ignorou minhas ligações por pura pirraça, por nenhuma das vezes em que me julgou como uma pessoa sem freio e completamente desequilibrada.
Você nunca me pediu perdão por toda a exposição a qual fui submetida pelo simples fato de bancar a minha decisão de estar perto de você. Por todas as vezes em que eu senti falta de ar depois de chorar compulsivamente. Por todas as vezes em que você me tratou com ódio ou demonstrou profundo desprezo por tudo o que eu sentia.
Por todas as vezes em que eu quis não existir, você nunca me pediu perdão.

Você nunca me pediu perdão por todas as vezes em que apontou o dedo para as minhas falhas e os meus erros. E você nunca se desculpou pelas injúrias, pelas palavras tortas, pelos transtornos que me fizeram pensar em desistir até do meu emprego.

Você nunca me pediu perdão por me manter deliberadamente na sua mão, por todas as vezes em que eu quis ir e você não deixou. Por todas as vezes em que você usou o amor como argumento pra que eu não me afastasse de vez.
Você nunca me pediu perdão. E eu esperei que esse perdão fosse suplicado em algum momento.

Mas hoje, com o coração leve, eu te digo que não mencionei muitas coisas pelas quais você deveria ser perdoado, talvez porque eu tenha simplesmente esquecido e apagado. Talvez porque esse seja o indício de que eu não vou mais falar de você. Que esse é o meu último texto sobre qualquer coisa que ficou. Que talvez, agora, eu esteja finalmente compreendendo que eu já te perdoei e posso seguir o meu caminho.

Mesmo sabendo que você nunca me pediu perdão.

terça-feira, 22 de maio de 2018

Esse é um texto feliz sobre uma pessoa triste

Hoje te vi na rua.
Depois de longas semanas sem sequer cruzar o seu caminho. Eu me virei na sua direção para te dizer oi. Você acenou com a cabeça, se mantendo sério, como se fosse esforço demais ser agradável logo pela manhã.
E percebi, naquele momento, que eu já não sentia meu coração palpitando, eu já não sentia náuseas, eu já não sentia euforia. Eu já não sentia nada.
Eu te olhei e para minha surpresa, você não tinha nada de especial. Não brilhava e já não era mais atraente. Você era parte da paisagem. Era igual a todos os outros que atravessariam a avenida. E era triste.
A sua feição - parcialmente escondida atrás do óculos de sol - demonstrava a insatisfação em estar ali.  Talvez em me ver, talvez em acordar cedo, talvez em ter a vida que tem. E eu percebi isso com clareza, sem me martirizar. Eu conclui isso com a plenitude de não ser impactada por nenhuma das suas reações - ou a falta delas.

Hoje te vi na rua e você era triste.
Mas esse texto eu escrevo feliz. Porque sou esse mesmo oposto agora.
Porque estou em paz comigo mesma - e também com você. Que agora virou uma pessoa igual a todas as outras.




segunda-feira, 21 de maio de 2018

Cante por nós

Eu era a pessoa que batia no peito pra dizer: prefiro um bom filme na cama à qualquer balada por aí. Eu dizia isso com aquele ar ligeiramente arrogante de quem se considerava intelectual demais para sucumbir às mesmices de uma maioria.
Mas, eu me esqueci de que para ter propriedade no que eu dizia, eu precisava viver aquilo de algum modo, e de preferência, de coração aberto.
Nas vezes em que eu olhei com desdém pra quem adorava as tais baladas, festas e festivais, eu me esqueci de considerar que cada pessoa é, em sua plenitude, um universo inteiro e completo. Me esqueci de analisar que se o que eu desejei por um curto espaço de tempo tivesse se concretizado, eu estaria agora vivendo os meus finais de semana numa sala de estar à base de ideias de produtores e diretores que conseguiram conclui-las para entreter a pessoa que eu teria me tornado. Eu estaria na minha antiga e patética corrida contra o tempo para atualizar o meu perfil do filmow.
Se o meu julgamento coubesse perfeitamente no meu antigo discurso blazê, eu não teria sentido o meu coração explodir dentro do meu peito ao som do espetáculo que vi de perto. Eu não teria recebido o olhar e o beijo à distância de um ícone da música atual. Eu não teria me emocionado da forma como me emocionei.
Se eu não tivesse me permitido vivenciar essa experiência, eu não teria visto todas as cores e luzes que vi em volta de mim ao lado de pessoas que me abraçaram, me ergueram, me acolheram, beijaram e seguraram a minha mão em grande parte do tempo em que estive ali.
Eu continuo louca por todos os meus filmes preferidos. Mas não quero mais somente viver os sonhos da tela quadrada. Não quero mais me concentrar em viver os sonhos de outra pessoa. Bem como, me interesso cada vez menos por pré julgamentos alheios - e isso inclui os meus.

Eu me interesso, nesse momento, em cantar numa só voz.
Do modo como cantei. Do modo como fui ensinada a cantar.

E se eu errar, que alguém cante por mim.
Cante por nós.