THERE'S NOTHING YOU CAN MAKE THAT CAN'T BE MADE.

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sexta-feira, 23 de fevereiro de 2018

Carta ao jovem senhor que se foi cedo demais

Caro senhor,

Sinto que o conheço, embora não tenha tido a chance de vê-lo em nenhum momento deste nosso plano.
Talvez seja pela forma como ele - seu filho mais novo - se refere à sua tão carinhosa criação.
Ouvi falar de seus gostos para a música, de seu coração nobre, de sua triste ingenuidade diante dos seres humanos que já lhe fizeram mal.
Ouvi falar de seus ensinamentos - e agora fazem falta à ele, àquele menino triste que ficou pra trás.
A falta nele pesa todos os dias. É uma dor que eu ainda não compreendo e que, para ser sincera, torço demorar para compreender. É um amor intenso, incondicional, preso nas abas do tempo que insiste em passar sem que você esteja por perto.
Devo dizer-lhe, caro senhor, que o seu filho ainda não encontrou o caminho.
Eu tentei guiá-lo através de tudo o que eu sabia, mas falhei.
Ele se esconde em seu próprio universo e lá então ele fica. Descreveu-me como estar num limbo e eu não consigo tirá-lo de lá. Eu não contribui muito para afastá-lo dali.
Eu vim lhe pedir para ajudá-lo. Para que, caso possa, envie luz suficiente para que ele saia do lado negro desta força. É só o que eu peço.

Da minha parte, espero que de onde estiver não me culpe pelas imprudências ou pelos erros que cometi. Estou aqui de coração aberto, dizendo a você, caro jovem senhor de coração nobre, que eu sei que sua partida aconteceu cedo demais.


quarta-feira, 21 de fevereiro de 2018

Traços de herói

O sorriso sempre nos olhos, antes mesmo da própria boca se expressar.
Todos os dias, no mesmo lugar.
O herói pra quem você corre, o herói que socorre a quem precisar.
Um abraço terno, uma voz amiga. Ajuda quem foi e quem fica.
Me disse que sou maior que tudo isso, que sou digna e sou feliz. Me fez enxergar o que preciso.

Gratidão ao herói de coração aberto. Ou herói que prefere o amor, ao dinheiro. Que motiva o que é certo.
Que sua extrema honestidade só te faça crescer, que minhas palavras só sirvam para te enaltecer.

O sorriso sempre nos olhos, antes mesmo da própria boca se expressar.
Todos os dias, no mesmo lugar.
Minha fé em seres humanos como você, eu tenho à dedicar.

sexta-feira, 16 de fevereiro de 2018

Compunção

Achei teu poema na minha caixa de segredos.
Tua letra torta em inglês, expressando uma tentativa nada falha de me fazer rir.
Poema simples, escrito em folha de caderno com pauta azul. E junto dele, a falta de uma carta escrita a mão, que eu me arrependo de ter rasgado por raiva.
Me arrependo, sim. Tanto quanto me arrependo do teu sofrimento, da tua dor explícita e agora distante. Me arrependo, sim. Da minha falta de apoio no teu momento de descoberta, da minha falta de empatia na tua agonia. Me arrependo de não ter sido justa com teu novo sentimento, pelo teu novo amor.
Quando, na verdade, eu poderia ter pensado um pouco menos em mim. Eu era burra. Um pouco mais do que sou hoje, talvez porque o meu eu de agora me permita eliminar parte dessa estupidez que parece estar entranhada em mim.
Me arrependo em não poder rir as tuas alegrias. Em não poder partilhar as tuas conquistas.
Me arrependo em sentir que não te ensinei nada válido pra essa tua nova vida.
Me arrependo de todas as músicas que eu nunca mais vou ouvir sem sentir falta do teu jeito sisudo. Me arrependo em ter forçado o teu choro.
E me arrependo de não poder te conhecer outra vez, nessa vida. De ter que esperar uma outra pra resolver as pendências que ficaram pelo caminho. Pra poder ter o teu perdão. E pra poder te dizer que eu me arrependo.

quarta-feira, 31 de janeiro de 2018

Por enquanto

Muito se falava sobre amizade recíproca, mútua, verdadeira. Do tipo que ultrapassa os limites do tempo. Do tipo que se mantém diante das mais distintas dificuldades.
Eu tinha 15 anos e um all star vermelho sujo todo rabiscado com o nome dos integrantes da sua - até então - banda, quando acreditei nisso piamente. Essa talvez tenha sido a primeira e última vez em que isso aconteceu.
O que vinha depois, vinha com as minhas dúvidas, os meus receios, o meu medo de perder de novo o que eu já tinha perdido quando notei que a nossa relação - aquela relação que gritávamos pro mundo ser a de dois irmãos - já não era igual.
Eu sei quanto amor depositamos nisso. Eu sei listar todas as vezes em que você me protegeu do frio, em que me acudiu. Eu consigo me lembrar de todas as vezes em que você sorriu pra mim enquanto tocava seu violão e todas as vezes em que desci a rua da minha antiga casa correndo só pra poder pular no seu pescoço - como as cenas de filmes que eu acreditava que viveria um dia.
Mas, dádiva ou maldição, eu tenho uma memória boa o suficiente para me lembrar de todas as vezes em que você deixou de me responder, em que um ''como você está?'' ou o desenvolvimento de um assunto qualquer caia no seu esquecimento.
Eu ainda me lembro, assim sem pesar e sem dor, de todas as vezes em que você poderia ter tentado honrar a promessa que me fizera no ano anterior, aquela que consistia em estar mais próximo, em fazer parte da minha vida de forma mais efetiva.
A muito falada amizade mútua, apesar de ter deixado registros incríveis de momentos dos quais provavelmente vou me lembrar enquanto eu respirar, ficou no esquecimento, de algum modo. Eu não te culpo. Eu não me culpo. Eu não culpo ninguém e não culpo a vida. Não ter você constantemente no meu caminho me ajudou a seguir sozinha. Tenho orgulho disso.
Só assim eu pude me achar e tirar as cenas dos filmes da cabeça pra poder vivê-las como eu bem entendesse.
Parece o velho clichê dos amores jurados que se perdem no tempo, na saudade e na ausência. Talvez essa seja a hora em que a gente aponta pra vida, pega o violão e toca "Por Enquanto" da Cássia Eller, só pra dizer que o pra sempre, sempre acaba.

Mas hoje, num dia como hoje, eu não tenho nada pra comemorar. Eu não tenho palavras entusiasmadas de amor e felicitações pra você. Hoje eu tenho só a nostalgia - foi o que sobrou.
Não que não haja gratidão. Mas antes havia um buraco imenso e agora não há mais. Eu o fechei por mim mesma.
Hoje, essa data se tornou uma simples formalidade.

sexta-feira, 12 de janeiro de 2018

Neve

Dissolve entre os dedos.
Não é como nos desenhos animados. É a falta de calor a qual alguns de nós estamos fadados.
Solta e leve. Escorre na mão.
Quase tão triste quanto a chuva de inverno, que deprime a mais bela canção.
Ausência do que foi bom. Toda a sua frieza imposta a mim, quase como um dom.
Floco que cai. Mais uma parte que se vai.
Leva consigo a brisa fria, de um tempo onde de indiferença alguma eu perecia.
Neve. Leve.
Pedaço com sobrenome de tristeza.
Toco o bocado de neve. E nele, a frieza.

quarta-feira, 20 de dezembro de 2017

Para você, mulher

A ex namorada do meu futuro noivo me odeia.
A possível futura esposa dele - se não for eu - também odiará.
A irmã mais nova do meu amigo de escola me olha com desdém, me julga e fala para as amigas sobre a vagabunda que eu sou, mesmo que tenha sequer trocado mais de três palavras comigo.
A noiva do melhor amigo de um ex colega também não gosta de mim. Ela faz piadas pelas minhas costas, mas está sempre acompanhando minhas atualizações nos stories do instagram.
A atual ficante do meu amigo de trabalho me trata muito bem. E quando não está na minha presença, faz comentários maldosos a meu respeito. Para ela, meus esforços genuínos por proximidade são nada menos que uma tentativa de roubar dela o seu homem - homem este que eu nunca quis e provavelmente nunca vou querer.
A ex namorada de um amigo me persegue e usa minhas fotos para tentar me comprometer de alguma forma nas redes sociais.
Eu demorei um bom tempo para entender que eu era o pesadelo dessas mulheres. Que eu recebi os títulos de ''vagabunda'', ''vadia'', ''piranha'', ''manipuladora'' - e outros mais - todos, praticamente de graça.
De graça, sim. Eu entendo bem as minhas falhas. As pessoas impactadas por elas, também.
Mas eu sou um espírito livre. E fui em todas as vezes em que meti os pés pelas mãos. Nos beijos que eu talvez não devesse ter dado, nos corações que certamente eu não deveria ter machucado, nos meus caros - e raros - momentos de libertinagem e boemia.
Você, mulher, me odeia porque eu fiz o seu atual homem infeliz um dia. Mas, você deveria me agradecer.
Você, mulher, prega a igualdade entre os gêneros mas não respeita uma semelhante a você. Quando você julga uma outra, você está se julgando também.
Aqui não cabe o seu senso de certo e errado, não vale o argumento ''mas eu sou boa e ela é má''. Aqui não cabe o seu senso de proteção, se você me questiona por ter machucado o seu irmão, quando debaixo dos panos, você o maltrata.
Aqui não cabe o seu ciúme maquiado. E não cabe qualquer justificativa que você crie para fingir que seu problema é mais que apenas insegurança.
Aqui não cabe a sua crítica sobre o caráter de alguém, se você não ofereceu a si mesma a chance de conhecer o outro lado da história.

Para você, mulher, que se permite, que quebra paradigmas e tabus: meus parabéns, você é lamentavelmente uma exceção em relação a todas essas outras que eu considero regras.
Eu não sou sua inimiga. E se você, mulher, notou isso, além de parabenizá-la, eu serei grata.

Porque, para ser bem sincera, chega a ser um pouco difícil viver nesse mundo de convicções fabricadas, onde o julgamento é mascarado de ''opinião'' e a falta de respeito toma certos comentários que envolvem o meu nome.



sábado, 30 de setembro de 2017

Ela não vai se casar

Ela nunca vai se casar.
E não importa quantas vezes a tia avó pergunte a respeito da sua duradoura relação de quatro anos. Ela ainda não vai se casar. Mesmo que o status de relacionamento da maioria de seus colegas de escola seja alterado para "em um noivado" ou "casado(a) com".
Ela não vai se casar. Não enquanto isso for uma imposição. Um questionamento de quem acha que a vida é essencialmente: crescer, casar, reproduzir e morrer.
Ela não vai se casar. Não aos 25. Nem aos 26. Talvez nem mesmo aos 27. E não será tarde. Ainda não é. Ela não vai se casar.
Não antes de conhecer mais cinco estados do país onde vive. Não enquanto suas mãos não tocarem a neve ou até enterrar os próprios dedos dos pés na areia de alguma outra praia nudista. Até ter atravessado a fronteira de um dos países vizinhos. Ela não vai se casar.
Não até ter certeza de que o eleito para essa árdua tarefa concordará com uma parede amarela na sala, ou com mais de 5 tipos de quadros dos Beatles espalhados pelo corredor do que deveria ser "o lar do casal casado".
Ela nunca vai se casar. Não enquanto a pergunta típica das reuniões de família for "e quando você pretende se casar?". Não haverá a belíssima cerimônia católica com sermão sobre a necessidade do homem em ter uma mulher como seu pilar para uma vida maravilhosamente convencional.
Não enquanto ela não fizer seu grande amor compreender sua paixão por animais, por J.R.R. Tolkien, por clássicos românticos do cinema. Eu realmente acho que ela será excepcionalmente feliz.
Mas se me perguntar agora: Acho que não, ela nunca vai se casar.