THERE'S NOTHING YOU CAN MAKE THAT CAN'T BE MADE.

THERE'S NOTHING YOU CAN MAKE THAT CAN'T BE MADE.

terça-feira, 10 de março de 2015

Maternal

Ela não envelhece - pensei comigo mesma - Nos mais de vinte anos que a conheço, ela permanece igual, como se ainda guardasse uma carga de sonhos de menina que são soprados pela vida. Como se a cada ano, ela usasse de um pouco mais de compreensão e coerência para entender as minhas falhas e as minhas virtudes.
Ela dirige tão bem - pensei. Acho que eu gostaria de saber dirigir do jeito dela. 
Os pingos caiam entre o vidro da frente e se quebravam em direção aos vidros laterais do carro. Ouvíamos uma música antiga, daquelas que costumo escutar nas playlists hoje montadas para embalar um final de semana em casa.
Ela me contara que aquela música havia sido a primeira que a fizera dançar com um garotinho, em um de seus bailes de garagem, no auge de sua infância. Me contara que sempre tivera certa timidez e contraditória independência. E seguia dirigindo, mencionando detalhes de uma vida muito distante de sua realidade. Uma vida cheia de curiosidades que ela só ousou dividir comigo, naquele momento.
"Logo que você virou adolescente, sempre que dizia sair pra algum lugar, as pessoas ficavam preocupadas. Acreditavam que você era muito solta. Mas você era como eu. Eu me via em você, na sua liberdade, na sua independência" - Foi o que ela me disse.
Logo me vi radiante diante daquela frase. 
Eu sou como ela? Mas que honra ser assim. Que honra ser como uma mulher que sempre foi tão guerreira, tão presente, tão bonita...
Ah, sim. E que beleza é essa que não morre e nem padece? Beleza é essa que não falha. 
Que honra a minha ser batizada por uma mulher clara, doce, equilibrada. 
Que honra a minha ser presenteada por uma mulher que compreende os meus gostos.
Que honra tê-la por perto para ser como uma guia, de uma amor tão maternal e sem laços de sangue que poucos experimentam.

Que honra chamá-la de madrinha. De mãe. De mãedrinha.


segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

Mais sangue que o meu próprio sangue

Certa vez ouvi minha mãe me dizer que eu provavelmente sobrevivi ao parto e saí ilesa de um útero que já me carregava em sofrimento fetal, porque houve uma mulher, alguém de fora da família, que rezava para que a criança esperada ali, viesse com saúde e cheia de vida.
Antes mesmo das rezas, o nome "Julia" já havia sido escolhido pelo meu pai, que o fez em forma de homenagem à pessoa em questão. Homenagem essa que, inclusive, sobreviveria ao tempo.
Cresci ouvindo histórias e contos de fadas, e tendo comigo a certeza de alguém seguindo efetivamente os meus passos, me cuidando e preservando como sendo de seu próprio sangue. Tanto fez por mim, que no auge das minhas adversidades, amorteceu todas as quedas e curou com maestria à todas as feridas, me deixando livre de qualquer trauma.
Fez por mim, o que nem o meu próprio sangue ousou fazer.
E hoje eu sei, que dentro de mim, quase tudo pertence a ela.

A foto continua estampada no mural daquele espaço que ganhei em sua vida. Sua casa, ainda tem o seu cheiro e só a espera retornar para que tudo se renove uma vez mais.
Minhas mãos ainda estão aqui, loucas pra oferecer a ela aquele abraço leve e bom que a deixa tão sem jeito. E hoje estou aqui, oferecendo também as mesmas preces que me salvaram a vida no início disso tudo.

Reage. Retorna. Luta. Fica comigo.
Que sem você eu sou uma neta perdida. E só você pode me dar esse colo.

sábado, 8 de novembro de 2014

Paternidade

Poderia não ser heroico, mas ainda assim me salvaria.
Um temperamento difícil, de certo, inconstante, irregular. Certa imponência no tom, rebeldia ideológica e certeza de sua própria razão. Sem concordar com o injusto, sem abusar do oculto, sem se desfazer do nobre coração, sem prender os pés no chão com a realidade, mesmo quando ela nos obriga a isso. E afinal, estamos falando de mim ou de você? Nem sei. Na verdade, acho que já me perdi.
Somos um. As nossas afinidades surgem daí. Nossas brigas e inquietudes, também.
Sou você: Nesse meu jeito ora tinhoso, ora turrão. No meu modo de avaliar as coisas - quase sempre usando palavras que aprendi com você -, no meu olhar reprovativo - e na cor castanho claro que vem com eles - e especialmente, no meu modo de sonhar e moldar o mundo ao meu gosto.
 É assim que te vejo hoje. Mesmo sendo uma cópia não tão bela de sua amada mulher, minhas expressões e meu gênio não negariam jamais de quem sou filha. E de que sou feita.
Poderia não ser heroico, mas ainda assim me inspiraria. E me ensinaria os caminhos corretos, sem que obrigatoriamente me forçasse a andar sobre eles.
Poderia não ser heroico, mas é.


terça-feira, 28 de outubro de 2014

Eu me lembro

Me lembro de entrar por aquela porta e te olhar através do vidro.  Lembro ainda de ficar paralisada por um momento, logo depois de fitar o seu riso. Você se entretinha em meio às suas baquetas e ao som que vinha delas. Parecia não me ver.
Me lembro que a minha empatia foi tão imediata que me senti terrivelmente constrangida por ela, com medo que alguém mais notasse que eu -  a garota nova ali - estava encantada por alguém que sequer havia me correspondido com o olhar.
Mesmo assim, me sentei, vesti minha sarcástica cara de indiferença e fingi prestar atenção em todas as outras conversas do compartimento externo do estúdio.

Você terminou suas músicas e obrigações daquela noite para com a sua até então banda, e saiu de dentro do estúdio, quase me colocando em choque. Em milésimos de segundo pude pensar em uma porção de coisas diferentes e assustadoras, sobre como ser testada pelo destino pouco depois de perceber que você era ainda mais bonito sem a interferência do vidro.
Você me olhou. Sem qualquer ar de cobiça. Sem qualquer pretensão. Apenas me fitou.
Em seguida, foi gentil. Assustadoramente gentil e discreto. 
Se aproveitou dos artifícios do estúdio e abriu as caixas de som enquanto eu cantava do lado de dentro. 
Me lembro de me sentir tortuosamente lisonjeada e corar feito uma criança. 
Me lembro ainda da sua forma sutil e divertida de me fazer sentir parte de tudo aquilo, como se já houvesse lugar ali pra mim. Ousaria dizer, inclusive, que talvez estivesse esperando por mim, guardando o meu lugar na sua vida.

Ao final da noite, eu me despedi. Foi assim que ganhei o nosso primeiro abraço.
E foi assim que eu vi que a vida colocou você pra mim, ali naquele domingo de outubro. 
Por isso eu sei de cada luz, de cada cor de cór, pode me perguntar de cada coisa, que eu me lembro.

Eu me lembro.

sexta-feira, 10 de outubro de 2014

Em 10 de outubro de 1990...

Em 10 de outubro de 1990, ela partiu. Foi embora do que pensou que seria seu lar até o fim da vida. Levou uma trouxa de roupas e sua estimada e preciosa máquina de costura. E assim, deixou tudo pra trás. Foi tomada pelo medo, pela incerteza e, ao mesmo tempo, por uma felicidade inusitada. À partir daquele momento, ela experimentaria um sentimento que havia levado anos para descobrir: A liberdade de um amor. Amor esse, tão intenso quanto o imenso céu, que ela mesma disse viver como se tudo dela fosse. Ele, que já não tinha nada, poderia enfim considerar a sorte da tê-la, enfatizando anos depois, que jamais pensaria em encontrar ou merecer mulher tão extraordinária. Ele descobriria ser capaz de amá-la muito além do amor que se mostrara ali. Descobriria mais tarde, que ser humano nenhum no mundo poderia fazê-lo completo da forma como ela fazia. Ele, mais tarde, enfrentaria as adversidades da doença que a dominaria, e contaria aos filhos a verdadeira concepção do amor. Ele seria o herói de sua própria história, ainda quando tivesse certeza de que não passava de um mero coadjuvante. Eles, juntos, enfrentariam o mundo. E deixariam a inspiração de um legado de sabedoria, amor e lealdade à filha mais velha e ao caçula. Após vinte quatro longos anos, eles provariam ao mundo que aquela fuga - digna de um filme - seria a chave da história de amor mais bonita que se poderia contar.

terça-feira, 8 de julho de 2014

A arte da hipocrisia no país do futebol

Eu nunca me considerei patriota. Eu nunca fui de fato patriota. Eu não vesti a camisa da seleção brasileira em nenhum dos jogos. Eu não me preparei, não esperei ansiosamente por ver a seleção entrar em campo. Eu não acompanhei assiduamente a Copa do Mundo. E nunca entendi a fascinação alheia por um esporte que nunca compreendi totalmente. Meu nome é Julia Gonçalves Pedro, 22 anos. Nascida e criada em São Bernardo do Campo - SP. Estudante de escola estadual integralmente, e bolsista do único curso de graduação que consta no meu currículo, até o presente momento. Usuária e dependente de transporte e serviço de saúde públicos. Meu pai, Marcos Rogério Pedro, nunca me ensinou nada sobre esportes, ou sobre o futebol em si. Ele, inclusive, sempre foi o tipo de pessoa que dorme durante a maioria dos campeonatos e perde quase todos os jogos que o resto do mundo poderia considerar importante de algum modo. Ele mesmo nunca me ensinou a ter um time para torcer, ou compreender o sacrifício de muitos que se esforçam pra chegar numa posição de sucesso nesse meio. Meu pai, homem trabalhador, digno e consciente, nunca entendeu a minha escolha por um time como o Santos - tão distante de tudo o que eu sabia sobre futebol. Mas, essa foi a minha escolha no auge dos 16 anos e desde então me mantive fixa na ideia de não ser convencida a torcer por nenhum outro time. Nunca entendi bem a fascinação de amigos, colegas e familiares, que torciam desesperadamente e tentavam me convencer de que o meu time nada tinha a ver com o restante de escolhas coerentes. Pois eis que por ironia do destino, me envolvi e assumi relacionamento com o garoto mais louco por futebol que já conheci. Ele - que muitas vezes deixou planos pra trás apenas pra se dedicar ao seu momento preferido: assistir aos jogos independente de qualquer coisa - passou a me ensinar tudo o que sabia sobre o esporte, me envolvendo em ideias justas sobre marketing de time e contratações, me explicando os mínimos detalhes para que eu não me perdesse vendo a um jogo e não acreditasse em tudo o que me fosse dito. Por uma ironia muito maior, passamos nossa primeira Copa do Mundo juntos. Criticamos juntos as mesmas pessoas que meses antes iam às ruas para protestar contra a Copa, para criticar os "Padrões Fifa"; e que agora se pintavam de verde-amarelo para torcer com #vaibrasil #rumoaohexa e todas aquelas hipócritas hashtags. Hipócritas, de fato. Pois 80% delas vinha de pessoas que não compreendem o sentido de torcer por um campeonato ou por uma seleção. Pessoas essas incapazes de oferecer apoio a um outro num momento de tristeza e perda de título. Pessoas que acham a queima da bandeira nacional um ato justo e digno "visto que a seleção não nos representou devidamente no jogo tomado de lavada pela Alemanha". Curioso que eu, alguém que nunca gostou de fato de futebol - e que tenha até me irritado em algum momento com a assiduidade com que fui obrigada a ver jogos com meu namorado - tenha agora o sentimento de revolta para com todos os outros que questionam a atual seleção brasileira de forma tão rude e desagradável. Mais curioso ainda é que eu venha por meio desta, me manifestar sobre toda a hipocrisia que se segue à partir daqui, da perda, justamente para não perder a cabeça discutindo ridícula e estupidamente com pessoas que não entenderiam tal ponto de vista. Curioso que eu tenha roído as unhas nos momentos de maior aflição desta Copa, que tenha desejado o título, sem, é claro, usar isso de "Pão e Circo" para me alienar ou mudar minha visão política do país. Curioso que eu tenha entendido a escala e montagem tática falha de Luis Felipe Scolari, e que ainda assim tenha me emocionado de verdade com as palavras de David Luiz ao final do jogo dos 7x1. Curioso que todos os verde-amarelo agora estejam "com vergonha de seu país" e fazendo piadinhas banais às custas do lamentável resultado. Pessoas essas que montaram banquetes, promoveram churrascos e se aproveitaram de todas as regalias que o evento da Copa do Mundo proporcionou. Curioso que eu admire - e muito - o jogo e a destreza da Alemanha em campo e não tenha nada a questionar sobre isso. Cumpri e cumpro os meus deveres como cidadã do país. E lamentar pelo fracasso não me torna menos digna. Eu de fato sofro e lamento por este país, de uma seleção que não jogou devidamente, que não pôde representar devidamente. Mas lamento muito mais por uma nação inteira que não sabe votar, uma nação que não sabe torcer e muito menos perder. Uma nação que não apoia quem estiver contra o que lhe for exigido e que, ao mesmo tempo, se fecha e se desinteressa por questões tão mais urgentes. Eu de fato lamento por uma torcida que vaia o seu time - mesmo quando este não lhe dá pleno orgulho. Eu lamento por tudo o que vi e por tudo o que li na última hora, dentro e fora das redes sociais. Eu lamento saber que o vizinho aqui ao lado quis por fogo na própria camisa verde-amarela, a camisa que beijou na semana passada, no jogo que eliminou a artilheiro da Copa - da Colômbia. Eu apenas lamento. Meu nome é Julia Gonçalves Pedro, 22 anos. Brasileira. E eu tenho o direito de lamentar, pois estou aqui, incapacitada de voltar pra casa, por já ter ouvido todos os buchichos de que a violência por conta da perda no jogo está terrível, e que é possível que eu me machuque. Tudo porque a nação não sabe perder.

terça-feira, 24 de junho de 2014

Sobre os nossos objetos e um pouco de nós dois

Eu te roubo. Roubei partes de vocês para toda a minha rotina. Encontro partes da tua vida perdidas no cubículo colorido que é o meu quarto. As tuas meias, que estão guardadas na primeira gaveta da minha cômoda. Aquela tua camiseta esportiva divide o mesmo espaço de todas as roupas que uso pra dormir, e com a aquela bermuda de tactel que você usa na falta de um pijama. A tua foto com mais de seis caretas diferentes está impressa em folha adesivada e colada na minha parede, acima do meu quadro de fotos. Não posso nem me queixar, afinal, eu me deixei roubar e adorei fazê-lo. Cada canto do teu quarto tem um pouco de mim e da minha bagunça feminina. Tomei quase todo o espaço da segunda gaveta da tua cômoda, e nela hoje encontro mais das minhas roupas que das suas. A camiseta de gola listrada, o pijama com estampadas que a tua mãe jura ser a minha cara, a calça preta que me fica larga demais nas canelas e baixa demais nos quadris. O cabide da tua parede, ao lado do banheiro, pendura o meu vestido azul de bolinhas brancas, aquela minha blusa preta com detalhes de camurça, e alguns outros adereços de frio que eu certamente me esqueci de levar pra casa num dia de calor. A primeira fileira da tua estante ergue um porta-retrato com uma das nossas fotos. A segunda fileira dela, no entanto, segura os teus desodorantes e, no meio deles, aquele meu creme com cheiro de pêssego – que você tanto gosta. Entre o aparelho da TV à cabo e o DVD, uma cestinha de palha com todas aquelas inutilidades que eu sempre esqueço de colocar na bolsa. Um par de brincos de bijuteria, um vidrinho de esmalte da coleção da última estação, uma tiara vermelha com laço e uma porção de grampos perdidos. Até embaixo da tua cama tem sapatos meus jogados e esquecidos. Saltos, tênis, sapatilhas. E acho que até perdi a conta de quantas vezes você riu me perguntando quantos pés eu tinha para a necessidade de tantos calçados. A minha bagunça se tornou tão nossa. O seu universo tão meu. A nossa intimidade é de fato tão íntima, que as vezes acho que nem você saberia mais viver sem aquela toalha cor-de-rosa que está pendurada no banheiro, me esperando chegar, mesmo sabendo que não vou ficar por lá por muito tempo...